Liberalismo para a Servidão

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“Pode conduzir ao abismo mas é para o seu bem”

A consolidação da candidatura de Jair Bolsonaro como representante da direita brasileira nos trouxe a um lugar assombroso e peculiar. À medida que sua chapa fala mais e mais abertamente sobre a possibilidade de algum tipo de intervenção na democracia (seja o aumento artificial e unilateral dos ministros do STF, uma nova Constituição sem Constituinte, ou mesmo a defesa explícita de um golpe de Estado ou de autogolpe) mais os nossos colegas amantes da liberdade apostam suas fichas num eventual governo Bolsonaro. “É que o Paulo Guedes vai fazer as reformas, privatizar, abrir nossa economia“.

É isso mesmo. Muitas das mesmas figuras que passaram anos esperneando contra um suposto caráter autoritário dos governos do Partido dos Trabalhadores agora tentam criar justificativas sobre como um eventual governo de entusiastas da Ditadura Militar nos conduziria à liberdade. Vejam só! Talvez se esqueçam de que uma suposta liberdade econômica agora teria um novo preço: a liberdade política.

O que nós assistimos é mais um capítulo na novela latino-americana onde supostos defensores da liberdade ajudam a rifar a democracia em troca de algumas reformas “desejadas pelo Mercado”. Muitos lembram da escusa relação da Escola de Chicago com Chile de Pinochet, cujo legado patético é uma mentira, e continua motivando estranhos desejos por “outros Pinochets” como reformistas ideais, já que podem conduzir sua política sob o auspício dos canhões e dos porões.

Eu gosto também de outro exemplo, mais recente e mais instrutivo e que envolve um pensador liberal com muito mais lastro do que um aventureiro como Guedes.  Hernando de Soto Polar é um economista peruano premiado e respeitado, conhecido por seu trabalho sobre pobreza, economia informal e direitos de propriedade – especialmente a propriedade da terra. De Soto é também conhecido por sua participação no governo de Alberto Fujimori, presidente eleito em 1990 que mais tarde governaria o Peru como um ditador.

Fujimori fez suas reformas liberais a fórceps, fechou o Congresso, criou uma polícia pessoal que agia como grupo de extermínio (Grupo Colina) e escalou a guerra do Estado peruano contra o Sendero Luminoso de maneira brutal, legalizando milícias e usando as Forças Armadas para praticar atrocidades contra comunidades de camponeses consideradas “suspeitas”. Comandou a esterilização involuntária de 200 mil mulheres mulheres pobres. Foi um presidente popular, apesar de tudo, mas terminou seu mandato em total desgraça: denunciado por crimes contra a humanidade, corrupção, envolvimento com o narcotráfico. Fugiu do Peru mas anos mais tarde foi preso no Chile e extraditado de volta.

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Funeral paras as vítimas do Massacre de Barrios Altos

Mas mesmo com Fujimori preso o Fujimorismo não acabou. Foi herdado por seus filhos, Keiko e Kenji Fujimori. Em 2010 Keiko Fujimori fundou o Fuerza Popular, partido que reunia os fujimoristas peruanos. Ela concorreu às eleições presidenciais em 2011 mas perdeu para o militar reformado Ollanta Humala e seu partido conseguiu 37 assentos no Congresso Nacional.

E Soto Polar? Ajudou Fujimori a implementar suas reformas mas se afastou dele depois do autogolpe. Sua relação com o fujimorismo, no entanto, permaneceu. Nas eleições de 2016, quando Keiko Fujimori era a candidata preferida para a presidência e os fujimoristas do Fuerza Popular se mostravam como favoritos para conseguir maioria no Congresso Nacional lá estava Hernando de Soto Polar novamente, apoiando Keiko Fujimori – apesar, das inúmeras denúncias do envolvimento de seu partido e sua candidatura com o narcotráfico.

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Fool me once…

Keiko Fujimori não venceu as eleições presidenciais de 2016, a vitória de Pedro Pablo Kuczynski (nosso querido PPK) se deu por uma margem ínfima. Mesmo com maioria  no Congresso o Fujimorismo não se acertou, e de lá para cá vem sofrendo derrotas atrás de derrotas e perdendo um de seus maiores triunfos: o apoio do judiciário corrupto herdado da ditadura Fujimori.

Esse pequeno conto traz alguma lições para nossa realidade. A primeira delas é a de que os liberais latino americanos muitas vezes são coniventes com regimes ditatoriais desde que possam fazer suas tão sonhadas reformas. “Democracia” e “liberdade” são valores de conveniência, palavras que devem ser acionadas quando se fala de governos autoritários com um viés de esquerda – ou aqueles com os quais governos de esquerda mantém relações.

No clima de absoluta desinformação e abandono institucional das eleições de 2018 muitos liberais se mostraram prontos a abraçar uma candidatura que se desenha autoritária e violenta desde seu primeiro momento. “Não é o PT”, dizem, e quanto mais evidências se amontoam de que o mandato do bolsonarismo promete violência e coerção mais se empenham na produção de uma falsa simetria em relação ao Partido dos Trabalhadores. O PT, no imaginário desses liberais, deixou de ser um partido de centro-esquerda com problemas de corrupção para se tornar um projeto ditatorial. Cada fala de José Dirceu deve ser tomada como uma ameaça imperativa e literal. Cada atentado contra a democracia gestado na cúpula do bolsonarismo deve ser trivializado.

A chapa pode ameaçar golpe de Estado sucessivas vezes, desde que condene os regimes de Maduro e Ortega. A violência pode ser estimulada e praticada nas ruas desde que seja contra a petistas. Agora dentro do paradigma do liberal-bolsonarismo muito cabeça de planilha se sente contemplado e inserido dentro de um movimento “verdadeiramente popular”: uma coalizão improvável de militares, pastores e youtubers, da qual participam por meio das promessas reformistas do fiador, Paulo Guedes.

Mas o bolsonarismo não é o fujimorismo e seu caráter liberal-reformista pode ser apenas um delírio. O preço dessa soberba, como de costume, também será terceirizado.

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#76 Refugiados Venezuelanos e Xenofobia – com Lucas Berti

Viracasacas Podcast

Saudações pessoas! Nessa semana os Viracasacas, mesmo desfalcados da presença de Gabriel Divan, tiveram uma ótima conversa com Lucas Berti sobre a questão dos refugiados venezuelanos no Brasil e os discursos e atos xenófobos realizados nos últimos tempos. O tema é importantíssimo e, infelizmente, conta com pouco interesse político para ser solucionado. Ouve aí!

O episódio começa aos 7m28s

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Catar.se A História (quase) definitiva de Monty Python

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Dicas Culturais

Atlanta

Cuba and the Cameraman

Viva la revolución –…

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A Reversal Destra

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Marxismo-Temerismo

Michel Temer comunista? Bilionários socialistas? Facebook stalinista? A Nova Direita repete diariamente que políticas socialistas não funcionam, que o comunismo não deu certo, mas aparentemente vivemos num mundo alternativo onde a URSS venceu a Guerra Fria: da ONU à Wall Street, todas as instituições do mundo contemporâneo estariam infiltradas por alguma versão da KGB.

Como tentei demonstrar no artigo das “pequenas verdades” a Nova Direita constrói seu pensamento com tomando como base uma série de falácias, de meias verdades.  A mais poderosa e recorrente delas é a de que “todo mal vem da esquerda“. Um dos elementos da filosofia política Nova Direita é o da negação do princípio de igualdade dos seres humanos, por isso o insistente ataque aos Direitos Humanos universais. Uma vez que Declarações de Direitos são construções do liberalismo, das revoluções burguesas que romperam com o absolutismo, faz-se necessário ampliar o conceito de esquerda. Essa “esquerda”, apresentada da forma mais vaga e abrangente possível, passa a incluir liberais progressistas ou qualquer um que não simpatize ou não queira colaborar com a Nova Direita.

Isso permite à Nova Direita produzir conceitos alternativos para certos fenômenos do capitalismo, ou mesmo internos às dinâmicas políticas da própria direita, num processo contínuo de “transformar em esquerda” qualquer coisa que incomode seus interesses, seus fiéis, seu público, seus membros. Esse mecanismo de dissimulação permite afirmar a já clássica falácia de que “o Nazismo é de esquerda“, inventar que a queda do Império Romano teve relação com o socialismo,  transformar a senadora Ana Amélia Lemos (PP) ou o apresentador Datena em cripto-socialistas – ou dizer que José Sarney tentou implantar o comunismo no Brasil.

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E você, pobre mortal, não sabia que Wall Street adora o esquerdismo.

A tendência de muita gente na esquerda é de tentar responder a essas maluquices com fatos, argumentar longos contrapontos, mostrar dados e notícias, chamar a outra pessoa de ignorante, dizer que ela precisa “estudar história”, ou fazer chacota. Isso tudo só faz sentido se assumirmos que a política do absurdo propaga tanta loucura de forma não-intencional.

E não é o caso. A aparente ignorância e desconexão da realidade está contida num método, numa forma de comunicação extremamente eficaz: a repetição. O método consiste em criar a mentira, em sua forma mais absurda ou abjeta, e fazê-la ser igualmente repetida por fiéis e céticos. Depois que a mentira estiver bem estabelecida por meio da repetição qualquer um que desconfie dela será tratado como um inimigo. Entre cínicos, trolls e imbecis uma pequena verdade é fabricada. Ela precisa ser confortável e triunfalista, taxativa, desprovida de nuance e, de preferência, completamente absurda.

Esse é o método que permite que Michel Temer seja chamado de “apenas mais um comunista” pelos grandes intelectuais do Instituto Liberal. Temer se aliou a toda a direita brasileira, seu partido lançou um programa de reformas extremamente liberal chamado Ponte para o Futuro, sua curta presidência foi extremamente impopular, exceto no mercado financeiro. Diante desses fatos, como Temer poderia ser um comunista? Tanto faz. Basta que digam que o mercado financeiro também é comunista, como os gênios do MBL já nos explicaram.

Esse tipo de excrescência, de maneira proposital ou não, é o que abriu caminho para o crescimento de apelos por golpe militar e também explica, em parte, o êxito da candidatura de Jair Messias Bolsonaro. Em ritmo permanente de campanha desde 2015, Bolsonaro conseguiu se firmar como o único candidato que é “direita de verdade” usando de uma lógica simples e eficaz: pega carona na quantidade imensa de material que afirma que a corrupção seria um problema da esquerda, repete incessantemente que não é corrupto (apesar de quaisquer evidências contrárias) e assim torna-se, por extensão, o único candidato de direita. Ele pode dizer que é contra mídia, contra “o sistema” mas é um fruto gerado no âmago do establishment antipetista

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Desaprovou o General Mourão? Comunista!

Esse esforço contínuo de transformação e reafirmação não tem qualquer compromisso com nenhum nível de argumentação factual. As reformas de Maurício Macri falharam? Evite discutir a natureza delas, ou fazer uma análise mais demorada sobre os desafios da economia argentina e a relação do panorama atual com aquele do início dos anos 2000. Chamemos outro “intelectual”, o fundador do Instituto Liberdad Querida, que ele define como o “Tea Party argentino” para que ele assegure aos leitores do Antagonista que Macri nunca foi nada mais que um social-democrata…

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Jornalismo de qualidade.

E nada disso é uma questão de ajuste ou coerência. É possível que governos não executem o que prometeram em campanha ou hajam em desacordo com a coalizão ou plataforma que os elegeu. Não é o caso argentino. Mas agora que Macri parece ter falhado, não por suas intenções mas por suas ações, é preciso que ele seja jogado para fora do espectro político dos bons. Agora Macri deve ser “apenas mais um social democrata”.

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Stálin dançou foi pouco.

Para além da política institucional, esse tipo de estratégia é usado para falar sobre qualquer coisa: da crise dos refugiados à indústria cultural. O último sucesso do pop não se deve à combinação de consumo massificado e hiper mídia, trata-se um complô da Escola de Frankfurt – e não, não interessa que você mostre que Adorno criticava JUSTAMENTE a cultura de massas. Nunca ouviu falar que o Esquenta era um programa de extrema-esquerda? Se o público não gosta do Esquenta e não gosta da esquerda logo o Esquenta é de esquerda. Extrema-esquerda. Regina Casé era uma extremista do funk.  É o temido Marxismo cultural!

Há algo terrivelmente eficaz nessa estratégia. Ela permitiu que Donald Trump criticasse Hillary Clinton como a “candidata de Wall Street” na campanha presidencial de 2016, muito embora boa parte de seu staff, incluindo o coordenador Steve Bannon, viessem do mundo das finanças. Desde a Crise de 2008, que aconteceu sob a batuta de um governo Republicano, a relação entre Wall Street e Washington se tornou ainda mais impopular.  Movimentos como o Tea Party, que tentaram “renovar” o partido Republicano com um populismo de direita, diziam odiar Wall Street – embora sua agenda apontasse no sentido contrário. Vencida a eleição nada impediu que Donald Trump, numa ação típica de um membro do partido Republicano, aprovasse cortes em impostos que beneficiaram Wall Street, ou representasse o mercado financeiro como “vítima” de regulações governamentais que mais tarde seriam suavizadas por seu governo.

A fantasia de que o mundo é dominado por uma suposta hegemonia da esquerda também é muito útil para a extrema-direta. É uma maneira mover a Janela de Overton, o conjunto das ideias toleradas no discurso público, para a direita. Se Angela Merkel, líder do partido de direita União Democrata-Cristã, for repetidamente chamada de socialista fica bem mais fácil que para os políticos da AfD, partido de extrema-direita, se passarem por conservadores ou direitistas convencionais – mesmo que desde de sua fundação o partido tenha caminhado rumo a posturas cada vez mais extremas.

 

A Política do Absurdo

 

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Então aqui estamos de novo. O candidato da “intelectualidade conservadora” não está satisfeito em atacar “o comunismo” ou mesmo a esquerda. Ele quer dizer coisas absurdas, factualmente erradas, mas não aquelas nas quais o campo da controvérsia tem um pequeno espaço para respirar.

Ele quer mentir. E não contar qualquer tipo de mentira mas aquela que é facilmente desmentida por dezenas de milhares de especialistas e centenas de milhares de documentos. Aquela que é desmentida por testemunhas oculares, pelos sobreviventes e pelos cadáveres. E quando ele for desmentido por quem dedicou uma vida ao assunto, pela imprensa ou por qualquer pessoa com um mínimo de bom senso ele vai se fazer de vítima. E não apenas vai usar essa posição de vítima mas se apegar a ela para dizer que ele e os seus estão sozinhos contra alguma “conspiração esquerdista”.

“Todos aqueles que discordam de mim defendem ditaduras” dizem seus seguidores, 10 segundos depois de defenderem uma ditadura do passado ou, sem qualquer cerimônia, dizer que desejam implantar uma ditadura no futuro.

A posição de vítima é um componente essencial das Novas Direitas – justo aquelas que tanto denunciam um suposto “vitimismo”. Serve para desenhar um establishment inimigo imaginário (composto por qualquer um que se pronuncie contra seus absurdos), e também para garantir o apoio, tácito ou declarado, de pessoas que foram convencidas de que todo mal vem da esquerda.

A esquerda, nesse caso, é um conceito elástico o suficiente para caber todos os inimigos do líder e seus seguidores. Ela começa com os socialistas mas logo passa a incluir progressistas, liberais, cidadãos preocupados, ou mesmo qualquer um que não declare seu apoio. E os inimigos, como mostrou Umberto Eco, precisam ser retratados como simultaneamente fortes e fracos, onipotentes e débeis, de preferência engajados em alguma conspiração sinistra contra tudo o que os seguidores mais amam: sua família, seu modo de vida.

E o absurdo é o que os une. Ele torna possível aos “intelectuais conservadores” dizer qualquer coisa sem que haja cobrança em suas próprias hostes. Aquela frase de efeito que Churchill nunca disse, o ensaio onde se defende a segregação racial, a tentativa de reescrever a história através de um revisionismo troll. Entre os imbecis e os cínicos todos concordam.

Não adianta falar que essas pessoas  “precisam aprender história” ou “precisar ler livros de história”. Elas leem, assistem documentários ou pagam cursos para qualquer que diga o que elas querem ouvir. Elas precisam das pequenas verdades, algo que espante as dúvidas que se empilham no fundo da cabeça, que confirme que todos os problemas que assistimos no presente seriam fruto da “degeneração promovida por um grande plano levado a cabo por bilionários comunistas.”

A política do absurdo é um projeto. E se estamos na era da política como entretenimento, uma espécie de reality-show distorcido e sádico, eu diria que é um projeto muito bem-sucedido. Não é possível combater isso apenas com informação, contra argumentos e indignação – nesse ponto talvez a sátira e o humor funcionem de forma mais eficaz.

Mas mais do que nunca é preciso que haja outro projeto. 

Ensaios para o fascismo estão em pleno curso

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Ensaios para o fascismo estão em pleno curso (tradução de artigo de Flintan O’Toole, do Irish times)

Bebês em gaiolas não foram um “erro” de Trump, mas um teste de marketing para a barbárie.

Para compreender o que está acontecendo no mundo agora é preciso refletir sobre duas coisas. A primeira é que estamos em plena fase de ensaio. A segunda é que o que está sendo testado é o fascismo, uma palavra que deve ser usada com cuidado, mas da qual não se deve esquivar quando ela se percebe com tanta clareza no horizonte. Esqueça o “pós-fascismo”, o que estamos vivendo hoje é pré-fascismo.

É fácil descartar as atitudes de Donald Trump por ele ser um ignorante, até porque ele realmente o é. Entretanto, ele tem um conhecimento bastante apurado: testes de marketing. Ele se criou nas colunas sociais dos tabloides de Nova Yorque, em que as celebridades são forjadas…

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Eh Várzea #12 – A fronteira e o trumpismo brasileiro

Viracasacas Podcast

Saiba quem são as figuras por trás da decisão do governo Trump de adotar uma política de “tolerância zero” em relação a migrantes e refugiados, que acarretou na separação de mais de 3 mil crianças de seus pais. Ao final discutimos o como e o porquê do bizarro fenômeno do trumpismo brasileiro.

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Links:

Muito antes de Trump havia Ross Perot

Sobre Pat Buchanan

Sobre Stephen Miller.

Sobre Jeff Sessions

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Eh Várzea #9: O Policial e o Professor

Viracasacas Podcast

Frequentemente volta à pauta a ideia de que a direita, ou o conservadorismo, promoveriam as liberdades individuais ao passo que a esquerda seria coletivista. Argumento mobilizado sempre que alguém quer reclamar da suposta tirania do “politicamente correto”. Mas será mesmo? Uma rápido comentário sobre as ideias e projetos promovidos pela direita “liberal conservadora” no Brasil mostra que não é tão simples assim.

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Viracasacas #59 – A verdade sobre o “Globalismo”

De onde veio essa história de globalismo? Por que tanta gente anda obcecada com o bilionário George Soros? Teriam os Reptilianos infiltrado os Illuminati para controlar a economia global? O sistema-mundo, da teoria à teoria da conspiração no .

 Nós e o discutimos como a figura de Soros foi associada ao caos da liberalização nos Estados pós-comunistas na década de 1990. Como a teoria da conspiração do globalismo foi gestada nos EUA e no Leste Europeu e como ela se tornou um dos pilares da Nova Direita. Também falamos sobre como as “democracias iliberais” da Polônia e da Hungria (sob o PiS e o Fidesz, respectivamente) não são populares apenas por seu discurso conservador, mas têm um enorme capital político devido à suas políticas econômicas.

Em nações que nunca experimentaram algo próximo à social democracia, o nacionalismo populista e paranoico de Jarosław Kaczyński e Viktor Orbán ocupa confortavelmente o horizonte de possibilidades.Falamos um pouco também da Ucrânia (cuja situação é muito mais complicada) e da Rússia de Putin e das ideologias etno-nacionalistas gestadas ali.

Quem serão os monstros de amanhã?

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Oh yeah

Aquela coisa que sempre me intriga: toda essa celebração da condenação e prisão do Lula funciona como uma catarse como foi a deposição de Dilma. Os problemas que se atribuem exclusivamente a ele, ao PT ou à esquerda logo tomam forma cada vez mais arcana e generalizada.Tudo o que gravita em torno da esquerda, partidária ou não, é atacado como fonte de todo o mal. A educação vai mal? Culpa do Paulo Freire! A criminalidade avança? Culpa dos Direitos Humanos! A catarse vem, pouco muda e logo é necessário inventar novos monstros.
Quanto mais generalistas, absurdos e imateriais mais esses monstros serão politicamente úteis. A esquerda passa a ser retratada uma força que está em qualquer lugar, aparelhando qualquer coisa, ameaçando sua família, seus modo de vida, sua propriedade. Muita gente mantém a tese de que as paranoias de parte da direita sobre “bolivarianismo” ou “comunismo” vão diminuir com a prisão de Lula e a impossibilidade de sua candidatura. Eu discordo por um motivo simples: essas paranoias não carecem de um fundo de coerência.
A catarse que alimenta o espectro partidário sobre questões duras e difíceis sobre governo, corrupção, as relações entre o setor público e privado, não vai sumir. É uma narrativa útil demais, da mesma natureza que permite, por exemplo, ignorar a corrupção nas Forças Armadas.
Há vários limites aí. A transformação inevitável de integrantes do poder judiciário em um atores público que, por estarem supostamente alheios às questões da política (tornada corrupção) seriam melhores mais objetivos… a menos que tomem a decisão “errada” – chamemos os generais.
E nesse ponto há o risco de que a justiça não seja servida em igual medida a todos os aqueles nos radares, ou que o pode judiciário não consiga satisfazer todas as expectativas construídas em torno dele. Isso o tornaria outro poder da República em crise? Não há resposta fácil para isso. A quantidade de clamores pelo fechamento do Congresso ou do STF pode não ser numericamente relevante (ainda). Já é um problema que a sombra disso tenha se tornado parte corriqueira de um discurso que acha que a saída está fora da democracia.

As “pequenas verdades” e a Nova Direita

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A Revista Época não entendeu nada

Elogio da tortura, negação da história, anti-intelectualismo, macarthismo, desprezo por quaisquer valores democráticos, paranoia nacionalista. Mistura-se tudo isso com dispositivos para a destruição do debate público: notícias falsas, contextos mentirosos para imagens verdadeiras, vídeos tratando de questões internacionais com legendas falseadas. Eis a Nova Direita.

Os arquitetos da Nova Direita brasileira, polemistas como Carlos Andreazza ou Rodrigo Constantino, negam esse panorama. Tentam dar um verniz intelectual a essa salada ignorando quantos não estão soterrados sobre inúmeras camadas de paranoia, repetindo algo sobre George Soros e Globalismo, enquanto vozes mais poderosas arrastam seu público para uma espécie de culto da própria personalidade. Christian Dunker tem razão, Olavo já perdeu a sua.

Mas as “pequenas verdades” vendidas pela Nova Direita fazem sucesso no mercado de ideias. Algumas são confortáveis e triunfalistas: desenham o mundo como um sistema perfeito, perturbado pelas “mentiras dos esquerdistas” e pela intervenção do Estado na vida do cidadão. Outras, mais estranhas, pregam o retorno ao absolutismo, a glorificação do passado Europeu, a ideia torta de que o brasileiro pertenceria ao “Ocidente” do qual tanto fala a Nova Direita do Hemisfério Norte.

As narrativas vendidas pela Nova Direita são pequenas verdades por dois motivos: são realmente pequenas e cabem em uma frase, num meme, não possuem qualquer nuance; por outro lado são vendidas enquanto “verdades” mas sua dose de verdade é mínima, ínfima. Podem nascer como argumentos mas frequentemente morrem como falácias.

O cardápio de pequenas verdades da Nova Direita é variado. Às vezes um pedaço de uma discussão política mais ampla (o papel do Estado na economia), noutras uma falácia absoluta (“checagem de fatos é censura“). Todas contribuem para formar o mosaico de paranoia e desinformação que tomou conta do jogo político político global nos últimos quatro anos. As pequenas verdades da Nova Direita brotam de muitos solos. Algumas crescem a partir de questionamentos aos chavões da esquerda militante, outras nascem da esfera de influenciadores digitais cujo único compromisso é com o ultraje e a audiência.

No edifício das pequenas verdades toda discussão política deve estar esmagada entre o maniqueísmo e o relativismo. Qualquer argumento contra a Nova Direita é passível de ser “refutado” com alguma frase sobre Stálin ou Mao. Mas não tente citar Hitler ou Mussolini como contrapontos autoritários de direita: já se colocou à venda uma pequena verdade confortável que assegura aos conservadores que todo o mal do autoritarismo dos anos 1930 veio da esquerda!

Quando seus líderes falam sobre assassinato ou perseguição de dissidentes políticos a Nova Direita logo diz que tudo não passa “de discurso”, “piada” ou afirma que as palavras do grande líder não podem ser interpretadas literalmente. O mesmo não pode ser dito daqueles que a Nova Direita considera seus “inimigos”. A esses cabe a mais cuidadosa análise de tudo o que já foi dito ou feito. Os inimigos devem ser expostos como hipócritas usando de frases ou expressões pinçadas fora de contexto e reproduzidas dezenas de milhares de vezes nas redes sociais. Frases ou expressões as quais, aliás, a Nova Direita se orgulha de poder falar, já que não precisa prestar contas “ao politicamente correto” e reserva para si mesma o domínio exclusivo sobre os campos da metáfora, do sarcasmo, da ironia e do humor.

Nesse ponto o leitor pode estar se perguntando se algo do que foi descrito aqui não valeria para setores da esquerda. Talvez. O empobrecimento do debate público parece um fenômeno generalizado, potencializado pelas mídias sociais. E não digo isso porque acho que é necessário ser “intelectual”, “refinado” e usar jargões para discutir quaisquer tópicos. Não é. O maior problema é que estamos progressivamente nos afastando dos dados, dos fatos, embriagados pelo viés de confirmação. Isso não quer disse que a retórica inútil de “ambos os lados” vai nos salvar da realidade: os riscos do autoritarismo à direita são reais. Embalados por discursos que remetem a teorias da conspiração dos anos 1930, como “marxismo cultural” ou “genocídio branco“, os aspirantes a autoritários são vendidos como campeões de um certo Ocidente.

Por que ideias tão extremas se tornaram populares? Há várias explicações possíveis: manipulação de algoritmos de redes sociais, radicalização de partes da centro-direita depois de perdas eleitorais dez anos atrás, o sucesso inegável de think-tanks e propagandistas bem financiados, o fenômeno das notícias falsas, etc. De qualquer forma assistimos a uma estratégia de sucesso que consiste em associar valores muito comuns (zelo pelos familiares, religiosidade, desejo de trabalhar ou construir algo) a líderes e ideais extremistas. A difusão das pequenas verdades é essencial nessa empreitada, elas garantem a ampliação do medo e da incerteza, da consolidação da ideia de que a miséria ou o declínio que as pessoas experimentam seria causada pelas nefastas ideologias pregadas pelos “esquerdistas” e suas consequências.

Por Nova Direita aqui eu me refiro a um agregado ideológico mais ou menos coeso, combinando ideais do conservadorismo, libertarianismo e reacionarismo – e por vezes, de maneira consciente ou inconsciente, flertando com constructos da supremacia racial euro-americana e até do nazifascismo. Isso não quer dizer que as pessoas que apoiam ou se interessam pelos os ideais da Nova Direita seriam necessariamente simpáticas a ideias supremacistas, nazistas ou fascistas. O problema, mais complicado, é que essas ideias circulam com facilidade nesses meios, buscando aceitação através do “rebranding”.

Mas vamos ao que interessa: o edifício das pequenas verdades cresce cada vez mais rápido, já que os líderes, influenciadores e ideólogos da Nova direita o constroem diariamente. Por isso é importante analisar suas bases.

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Absurdismo Político?

1. Todo o mal reside na esquerda

Muito comum nos círculos de conservadores e reacionários ultramontanos, a ideia de que a esquerda personifica um mal transcendente é recorrente. Essa “pequena verdade” forma a base do pensamento da Nova Direita. Ela fundamenta todo tipo de revisionismo histórico, desde a negação de que haveria qualquer autoritarismo na direita (“não houve Ditadura Militar no Brasil”, “Hitler era socialista”, “o Nazifascismo era de esquerda” etc), passando pela ideia de que qualquer pensamento da esquerda seria patológico. Essa falácia em forma de “pequena verdade” é a grande fundamentação do pensamento da Nova Direita. Ela também tem uma propriedade recursiva: permite uma torção argumentativa que transforma todo novo mal explicitado em “esquerdismo”. Vide os absurdos argumentos que os neonazistas assassinos de Charlottesville seriam, na verdade, “esquerdistas” vinculados do partido Democrata.

Essa “pequena verdade” é construída com uma simples omissão dos fatos sobre a natureza da política norte-americana pós-Guerra da Secessão e sobre como os Partidos Democrata e Republicano inverteram suas políticas durante a luta pelos Direitos Civis. Nada disso interessa para a Nova Direita: eles venderão a “pequena verdade” conveniente de que aqueles que marcharam em Charlottesville não são de direita mesmo que a Alt-Right diga que marcha por valores conservadores, pelo livre mercado, pelo genocídio de minorias étnicas, por Donald Trump e contra valores progressistas.

A negação da possibilidade do mal ou do autoritarismo na direita é muito bem casada com uma torção da noção de liberdade: a sociedade civil que possui demandas progressistas será reduzida a um braço do Estado e representada como parte de um establishment tirano. A participação política passa ser vista como uma espécie de pecado original, a não ser que demande a suposta redução do Estado.

2. Capitalismo não é um sistema econômico como outro qualquer, com falhas e sucessos, mas um “reflexo da natureza”

Essa “pequena verdade” é muito comum nos circuitos de liberais, libertários e anarcocapitalistas. Ela se origina do pressuposto de que seria possível projetar o capitalismo retrospectivamente na história da humanidade, ou de que trocas espontâneas seriam “o capitalismo”. Também é corroborada por uma leitura simplista e caricata sobre a natureza dos genes e da teoria da seleção natural, projetando a competição econômica como um reflexo das trocas de energia na cadeia alimentar, por exemplo. O efeito disso é o que Mark Fisher chamava de “Realismo Capitalista“, um fenômeno no qual o capitalismo é conflagrado com a própria realidade, e o modelo do Mercado passa a ser idealizado como o padrão para todos os aspectos da vida. Qualquer tentativa de discutir ou reformar ao capitalismo torna-se utópica, anti-natural ou necessariamente perigosa.

Mais estranho, a única forma de combater consequências indesejáveis do capitalismo seria com um “mais liberdade econômica”, ou seja, retirando progressivamente taxação e regulações por parte do Estado. Os problemas seriam então “naturalmente” resolvidos através da livre iniciativa, auxiliada pela crescente e constante evolução das tecnologias. Discussões que apontem fatos que escapam a essa lógica (escassez de combustíveis fósseis, mudanças climáticas, extinção em massa) serão tratadas como “conspirações” instrumentalizadas para impedir o glorioso futuro prometido pela livre iniciativa em seu estado puro. E no mundo da não-intervenção, o princípio da livre iniciativa nunca é perturbado pela assimetria de poder entre indivíduos, comunidades, nações e corporações transnacionais (exceto se o indivíduo em questão for o George Soros).

Esse pensamento deriva de uma radicalização da ideia de que dinâmicas sociais, econômicas e ambientais tenderiam ao equilíbrio. A política passa a figurar como um um meio de garantir a “não intervenção”. Quando essa lógica falha em mostrar resultados esperados, círculos paleo-libertários e conservadores começam a enumerar inimigos: “terroristas comunistas”, “banqueiros socialistas”, “elites globalistas” ou “imigrantes parasitas”. Não tardará para que a Nova Direita passe a exigir que a mão pesada do Estado intervenha, sob a forma das Forças Armadas ou aparatos de segurança, contra esses inimigos sob a justificativa de assegurar supostas liberdades.

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“Debates”

3. “Você critica o capitalismo mas tem um iPhone”.

Essa “pequena verdade” parte de uma contradição aparente na esquerda intelectual ou de classe média: criticar o capitalismo, em qualquer aspecto, exigira que as pessoas não fizessem uso do que a Nova Direita considera como seus produtos. Misturada ao estereótipo do gauche caviar, do simpatizante do socialismo que vive do melhor que “o capitalismo proporciona”. Mas da crítica ao estilo de vida da esquerda intelectualizada essa “pequena verdade” logo evoluiu para bordões que congregam qualquer “comunista” a se mudar do seu país ou ir viver na floresta, já que a o convívio em sociedade e instituições seriam formas “naturais” do próprio capitalismo.

Tal “pequena verdade” aponta uma contradição inescapável para qualquer um que proponha mudanças: o fato de o sujeito está inserido naquilo que quer transformar. O pensamento peculiar por trás desse argumento é o de que não é o trabalho do sujeito mas “o capitalismo” o agente responsável pelo sucesso pessoal ou pela existência de quaisquer bens materiais. Comentários desse tipo serão seguidos por qualquer murmúrio sobre Cuba ou Venezuela, como se a republiqueta socialista e o petroestado populista fossem os únicos lugares do planeta onde o trabalho do indivíduo não é recompensado devidamente – ou que vivem crises de escassez.

Logo a questão torna-se de natureza moral: questionar qualquer aspecto do capitalismo é imoral para aquele que vive no capitalismo. Rio abaixo, a Nova Direita começa sua defesa do capitalismo através de fatos e questões lógicas mas logo passa para o campo da natureza humana e da moral. Discussões sobre essas contradições serão resumidas à acusações de “esquerdismo” ou “comunismo”. Paralelamente o realismo capitalista opera como uma saída simplória e reducionista às contradições dos diversos modos de produção, questões geopolíticas e históricas.

4. Indivíduos sempre são responsáveis por suas escolhas. O meio não influencia sua trajetória de vida ou suas escolhas morais a menos que tenham sido “doutrinados”.

Essa “pequena verdade”, em sua primeira parte, deriva da crença de que o indivíduo é o princípio fundamental da organização social. O individualismo faz parte de uma longa tradição da filosofia política, expresso em diferentes níveis, mas foi popularizado nas últimas décadas por meio do Tatcherismo e também pelo sucesso tardio do Objetivismo de Ayn Rand. O argumento de fundo individualista é muito comum na discussão sobre a criminalidade no Brasil, onde a esquerda mobiliza questões como a desigualdade social, a ineficiência da Guerra às Drogas e o modus operandi das forças policiais, e a direita enfatiza como ponto central a categoria de “bandido” como a fonte do problema. Removidos os bandidos, por encarceramento ou execução, o problema da criminalidade epidêmica estaria resolvido. O aumento galopante da letalidade policial e da morte violenta de policiais – muitas vezes atuando numa dupla jornada na segurança privada – seria apenas uma consequência direta e única da ação “dos bandidos”. Os bandidos seriam pessoas moralmente corrompidas, cuja escolha pela “vida fácil” no crime não teria qualquer relação com o meio em que vivem: vide o exemplo de tantas outras pessoas que não fizeram o mesmo. Já os excessos e crimes, se cometidos por policiais seriam o resultado de uma sociedade que não os valoriza, dos perigos do trabalho e tantas outras justificativas – muitas delas baseadas em fatos reais. Em suma, a corrupção policial seria “fruto da sociedade” e a “bandidagem” seria consequência de atos e escolhas individuais.

Curiosamente, em outro nível, a Nova Direita trata do constante perigo da “doutrinação” pairando sob a vida do cidadão. O fantasma da doutrinação se apresentaria principalmente na escola e outros espaços de educação, vistos como dominados pelos perigosos esquerdistas. Ali munidos de “livros do MEC” os professores estariam doutrinando seus alunos nos mais diferentes aspectos do que a Nova Direita chama de “marxismo cultural”, cujos conteúdos variam desde a rejeição à Ditadura Militar de 1964 passando por ensinamentos sobre os legados do colonialismo, diversidade social, educação sexual, ou respeito à homossexuais. A esquerda, para a Nova Direita, só existe por que “doutrina” as gerações mais novas através da educação. Na era da desatenção museus e escolas são representados como perigosos templos da doutrinação marxista supostamente responsáveis pelas restrições ao “livre pensamento”.

5. “No Islã é pior. Cale a boca e aceite.”

Essa “pequena verdade” deriva de um fenômeno recente, no qual céticos, ateus e secularistas euro-americanos deixaram de criticar a atuação do instituições do Cristianismo na esfera política e passaram a dizer que o Islã seria “a verdadeira ameaça ao Ocidente“. O abandono do foco no Cristianismo fez com que esses pensadores tivessem uma causa em comum com setores da extrema-direita, mantendo o trabalho fácil de tratar de uma religião em crise profunda, vinda de uma região arrasada por guerras e uma geopolítica que favorece um fundamentalismo extremamente destrutivo. Esse era um lugar novo confortável do ateísmo militante: quem em sã consciência tentaria defender uma religião cujos fundamentalistas mais violentos chacinam cidadãos desarmados em várias partes do globo?

O surgimento do Daesh (mais conhecido Estado Islâmico) foi um marco mais impactante que destruição das Torres Gêmeas pela Al Qaeda. A Nova Direita entendeu isso como uma oportunidade e logo se tornou passou a difundir a mensagem do Daesh, fingindo que ela corresponde à totalidade do Islã. O aparato de propaganda violenta do Daesh (venda de escravos, execuções, cenas de guerra) ajudou a Nova Direita a produzir um rebaixamento moral sem precedentes: tudo passa a ser justificável porque o Daesh já fez pior.

Homossexuais não podem reclamar quando políticos os chamam de imorais ou desumanos, quando sofrem violência na rua, porque estivessem em território do Daesh seriam sumariamente executados. Mulheres não podem elaborar sobre certa permissividade social em relação estupro porque o Daesh estuprou dezenas de milhares de prisioneiras de guerra. A denúncia de padres e pastores acusados de abuso sexual de menores não deve ser feita uma vez que certos países muçulmanos aceitariam o casamento de adultos com crianças. Se um supremacista racista invade uma mesquita ou templo Sikh e chacina seus frequentadores, devemos nos calar por causa dos atentados recorrentes na Europa. O Estado Islâmico rapidamente tornou-se uma referencia moral inconsciente, cujas atrocidades incontáveis e absurdas passaram a ser o norte para o que deve ou não deve ser permitido.

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6. “Não tenho corrupto de estimação”.

Essa “pequena verdade” deriva de uma estratégia muito bem sucedida da Nova Direita no Brasil: assumir que a política é “suja” e usar o discurso moralizador da política como forma de se eximir de responsabilidades sobre o próprio voto e preferências eleitorais. Esse discurso engendra uma lógica na qual os políticos apoiados pela Nova Direita acabam “consumidos” como se fossem celebridades. A lógica é a mesma do ciclo de vida das celebridades no aparato midiático: fama, adoração, desgraça, anonimato (repita). Vários campeões da moralidade política estiveram nas Páginas Amarelas ou na capa da Veja: Fernando Collor, o “caçador de Marajás”; Demóstenes Torres, o “mosqueteiro da ética”; a “súbita força” de Eduardo Cunha; Aécio Neves dizendo que é “vital recuperar a dignidade da política”. Agora Jair Bolsonaro é exaltado como “o único honesto” uma vez que não foi tocado pela Lava Jato – mesmo que tantos outros políticos também não sejam investigados.

Uma questão é a obsessão com os moralizadores, outra é a releitura rápida da história de modo a se isentar de tê-los apoiado quando são revelados como corruptos. Assim que um moralizador cai em desgraça, outro está já está em processo para assumir seu lugar. Então basta dizer que “não apoia corruptos”, afirmar que apoiou o antigo moralizador por “falta de opção” e se aglutinar em torno do novo moralizador. Essa isenção de responsabilidade através da lógica do consumo é bastante apropriada, uma adequação à narrativa de que as principais responsabilidades do cidadão se resumiriam a “produzir e consumir”. Num ambiente dominado pelas notícias do momento essa “pequena verdade” se sustenta com facilidade.

7. “Essa geração…”.

O que deveria ser um mote dos mais velhos contra os mais novos em tempos de transformação social acelerada acabou se tornando uma das pequenas verdades da Nova Direita. Essa pequena verdade afirma que a geração atual seria “fraca” ou “mimada” e que suas demandas pelo reconhecimento de minorias ou redistribuição de riquezas surgiria como um reflexo dessa fraqueza. Esse argumento é mobilizado principalmente pela juventude engajada na Nova Direita, que mira a si mesma numa versão romantizada do “conservadorismo” do passado. Angela Nagle entende que essa forma de fazer política da Nova Direita teria se fortalecido como resposta à política de identidades que se popularizou através da internet. O que ela chama de “esquerda tumblr” distribuiu a ideia de que as minorias são virtuosas por sua condição subalterna. A virtude estaria no fato de que viver como minoria exige força e conflito constante contra o status quo opressivo. Infelizmente, parte da subcultura de internet que teria surgido desse princípio acabou tornando-se demasiadamente autorreferente, obcecada com temas arcanos e subjetividade – algo para um texto futuro.

A Nova Direita juvenil procura inverter esse argumento, misturando o realismo capitalista, uma adesão à categoria de “opressor” e um suposto apologismo ao Ocidente (pois é). Isso permite uma identificação coletiva, como um passe de mágica, com “grandes nomes” da História: de filósofos da Grécia Antiga a generais da Europa. Também permite uma expansão do pensamento mágico que coloca atrás de si mesmo o monopólio sobre todas as conquistas humanas. Esse modo autocongratulatório de existência se tornou comum justamente em grupos de underdogs na internet que por qualquer motivo acham que postar memes congratulando o massacre de civis muçulmanos na Bósnia, as torturas do DOPS ou as execuções do governo Pinochet consistem em formas de “salvar a civilização Ocidental” de bolcheviques e justiceiros sociais.

8. “Tem que acabar os Direitos Humanos”.

Essa “pequena verdade” se apoia na ideia de que o conteúdo da Declaração Universal dos Direitos Humanos seria uma forma de “proteger bandidos”. Ignora-se que a Declaração foi assinada como um importante legado após o fim da 2a Guerra Mundial, depois de um conflito que arruinou a Europa e foi acompanhado de um genocídio sistemático. Algumas figuras da Nova Direita de inspiração libertária dirão que o problema está em ter o Estado reforçando tais direitos. Os reacionários dirão que nos “velhos bons tempos” haveria menos violência porque não existiam os tais “Direitos Humanos”.  Essa pequena verdade é de longe uma das mais complicadas e com possíveis implicações destrutivas, em especial quando a apologia ao genocídio passou novamente à integrar o discurso público.


Para saber mais

Anticast 313 – Da onde vêm os ideias da Nova Direita?

Anticast 313 – Material de Referência

Viracasacas 40 – Liberalismo Conservador?

Viracasacas 40 – Comentários

Andrew Sullivan – The Reactionary Temptation 

Joseph Bernstein – Alt White – How the Breitbart Machine Laudered Racist Hate

M. Ambedkar – The Aesthetics of the Alt-Right

Park MacDougald – The Darkness Before the Right

Rick Perlstein – I Thought I Understood the American Right. Trump Proved Me Wrong