A fronteira e o trumpismo brasileiro

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Texto de uma coluna antiga no Viracasacas.

Donald Trump lançou sua candidatura nas primárias do partido Republicano dizendo que o México não estava mandando as melhores pessoas para os EUA. Mexicanos que cruzavam a fronteira ou permaneciam no país após o vencimento de vistos temporários eram, segundo ele, criminosos (traficantes, estupradores) e, alguns, segundo ele eram boas pessoas.

Anos antes, em 2000, Trump havia anunciado que ia concorrer às primárias do Partido Reformista, algo que havia saído de uma ala mais extremista do Partido Republicano, mais focado em nacionalismo extremo, conservadorismo cultural e outras agendas que haviam feito parte da administração Reagan mas não eram sua principal agenda. O partido havia saído dos esforços da candidatura independente de Ross Perot, que na campanha de 1992 conseguira 8% do voto popular e, dizem as más línguas, teria tirado votos do eleitorado Republicano e ajudado na eleição de Bill Clinton para a Casa Branca.

Perot tinha um discurso familiar: era um empresário bem-sucedido, conservador, anti-imigração e também contra o NAFTA que, segundo ele, sugaria os empregos dos norte-americanos em direção ao México. Dizia que a imigração ilegal estaria destruindo os Estados Unidos. O partido Reformista também tinha em suas fileiras o paleoconservador Pat Buchanan (sem parentesco com James Buchanan), que é uma das figuras centrais na guinada do conservadorismo norte-americano de volta ao nacionalismo racista. Como várias das figuras que emprestam sua expertise intelectual a essa nova classe de demagogos de direita, Buchanan integrou o mainstream conservador nos EUA – tanto que aparece brevemente como personagem na versão cinematográfica de Watchmen.

Quando Donald Trump ingressa na campanha pelas primárias do Partido Republicano ele carrega consigo Perot e Buchanan, e soma ambos a sua longa carreira como personagem de tabloides, escândalos e reality shows. Seu retorno aos holofotes depois de uma série de negócios malsucedidos tinha vindo não apenas do sucesso de O Aprendiz, mas de seu papel central numa campanha difamatória contra o então presidente Barrack Obama que, segundo Trump, não seria norte-americano e também seria secretamente um muçulmano.

Trump passou a campanha inteira demonizando muçulmanos, latinos e ativistas pelos direitos dos afro-americanos. Contra essa legião de estrangeiros que ousa tentar entrar nos Estados Unidos, prometeu construir um muro na fronteira com o México – já extremamente militarizada desde a década de 1990 – e disse que obrigaria o país vizinho a pagar os custos.

Trump congregou em torno de si uma porção de ativistas e lobistas que, nas entranhas do Partido Republicano, espalhavam alarmismo e passavam a tratar imigrantes como hordas invasoras. Steve Bannon talvez tenha se tornado a mais famosa dessas figuras, considerado o patrono do “conservadorismo cultural” que engendrou uma série de movimentos neofascistas nos Estados Unidos – acabou desligado da Casa Branca, não por sua postura política, mas pela oposição a Jared Kushner e Ivanka Trump (o genro e a filha do presidente, respectivamente).

Stephen Miller é outro desses republicanos. A atual política de separação mandatória de famílias que cruzam a fronteira foi obra dele, mesmo agora ele diz que o ultraje provocado pela decisão é uma virtude, não um problema. Para Miller, é bom que os americanos estejam pensando em imigração ao ir votar nas eleições de 2018, onde vão eleger governadores, senadores, congressistas e prefeitos.

Miller começou sua carreira como secretário de imprensa para congressistas Republicanos. Mas foi sob Jeff Sessions, então senador pelo Estado do Alabama, que ele brilhou. Teve um papel central na derrota da proposta de reforma da imigração apoiada por políticos Democratas e Republicanos da chamada Gang of Eight, escrevendo muitos dos discursos que Jeff Sessions viria a proferir contra a reforma. Miller e Sessions desenvolveriam ali o que Miller chamaria de “populismo nacional”, em contraponto ao liberalismo social, à globalização e à imigração.

Antes disso, quando estudava Ciência Política na Universidade de Duke, Miller era conhecido por suas diatribes contra estudantes latinos, chegando dizer que eles não deveriam falar outra língua que não o inglês. Enquanto denunciava movimentos de minorias étnicas e imigrantes por uma suposta pregação de “superioridade racial”, Miller integrava a União Conservadora da Universidade de Duke com ninguém mais ninguém menos que Richard Spencer – o nazista que levou um soco na cara. Ambos trabalharam para promover um debate entre Peter Laufer, um ativista por fronteiras abertas, e o jornalista Peter Brimelow. Brimelow era um ativista conservador, que naquele momento dizia se opor à imigração por motivos econômicos mas que também se tornaria uma figura central no renascimento do nacionalismo racista nos Estados Unidos. Spencer descreve que Miller e ele eram próximos quando eram estudantes mas Miller nega qualquer relação dessa natureza.

Jeff Sessions, o senador do Alabama que viria a ser o procurador geral do governo Trump, tinha sido nomeado por Reagan para o cargo de juiz do Distrito Sul do Alabama. Sessions não assumiu o cargo porque, segundo um bocado de testemunhas, não apenas demonstrava um claro viés contra afro-americanos como dizia que organizações como a NAACP (Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor) e a ACLU (União pelas Liberdades Civis Americanas) seriam “anti-americanas” e “inspiradas pelo comunismo”. Sessions acabou não assumindo o cargo, mas viria a ser Procurador Geral do Alabama (onde ia defender um modelo inconstitucional de verbas para a educação que iria beneficiar imensamente distritos ricos e majoritariamente brancos e prejudicar distritos pobres e majoritariamente negros). Entre 1997 e 2017, Sessions ocuparia a cadeira de Senador pelo Estado do Alabama.

E então nós chegamos nesse momento. A administração Trump diz que quer combater a imigração ilegal, atividade que segundo eles é culpada por todos os males que se abatem sobre os Estados Unidos – reais e imaginários. A decisão de implementar uma política de “tolerância zero” e processar criminalmente o maior número possível de adultos que cruzam a fronteira foi do uma decisão anunciada várias vezes em 2017 – inclusive a decisão de retirar as crianças de seus pais ou acompanhantes. Implementada em 28 abril desse ano pelo procurador geral Jeff Sessions, tal política vergonhosa e suas consequências se tornaram públicas e foram objeto de ultraje no mundo inteiro.

Diante disso a administração Trump disse apenas estar cumprindo a lei e, como já fez inúmeras vezes, culpou o Partido Democrata por uma política gestada e implementada no interior do poder executivo e do aparato de segurança nacional. Depois negou que a política existisse, depois disse que ela tinha sido implementada por Barack Obama. Durante a era Obama, dezenas de milhares de crianças e menores de idade foram apreendidos cruzando a fronteira desacompanhadas, ou sob a guarda de estranhos (Coyotes), e chegaram a ser detidas por até 20 dias. A maioria das pessoas que cruzam as fronteiras dos EUA hoje em dia estão fugindo de conflitos e violência em Honduras, El Salvador e outras nações da América Central. E naquela época, a 4 anos atrás, a imagem de crianças e adolescentes detidos também causou ultraje – e foi utilizada tanto pela esquerda como por conservadores, como Glenn Beck, para atacar sua administração.

As diretrizes de deportação da era Obama tornavam prioritários os casos de elementos considerados perigosos – como os tais membros de gangues. Assim que tomou posse, Trump revogou essas diretrizes abrindo caminho para as políticas que adota hoje.

Mas o trumpismo, como toda a Nova Direita, é calcado numa máquina de negação e distorção de fatos. Trump, como todo bom líder de um movimento de idiotas, deve ser louvado como autoridade moral, cujas decisões são sempre perfeitas, nem que para isso seja necessário apagar ou reescrever o passado. Se ele ameaça um conflito nuclear e mais tarde decide negociar outra solução, torna-se merecedor do Nobel da Paz. Se adota uma política desumana que separa crianças migrantes de seus pais e mais tarde volta atrás deve ser louvado como um líder benevolente que acabou com uma política vil e imoral da qual sua administração seria incapaz.

Quando Trump compara migrantes a animais, ou diz que eles infestam os Estados Unidos, que fariam parte de um plano sinistro do Partido Democrata para garantir eleitorado, basta dizer que não foi bem assim… ele estava falando da gangue MS-13 que hoje aterroriza El Salvador. Ele perdeu o voto popular? É culpa dos supostos ilegais que votaram. Sua cerimônia de posse estava vazia? É mentira da mídia fake news.

E aqui surge a criatura mais peculiar em toda essa história: o trumpista brasileiro. Mestre no contorcionismo, essa criatura vai endossar toda e qualquer narrativa da Casa Branca e dos comentaristas profissionais que cercam Trump. Nesse mundo paralelo, toda a América Central está sob domínio comunista, o que explicaria os refugiados, e Trump é uma espécie de campeão contra um bloco comunista imaginário.

Esses exercícios de ficção são muito úteis: servem para esconder o que está por detrás das decisões do governo Trump e como essas políticas estão sendo desenhadas para exercer crueldade desnecessária aqueles que Donald Trump elegeu seus inimigos desde o primeiro discurso de campanha. O trumpista brasileiro, seja o comentarista conservador profissional, seja o idiota útil que acha que Trump liga pra suas convicções morais ou religiosas, é incapaz até mesmo de se comover com crianças brasileiras separadas dos pais. O problema passa a ser a infração da lei e não a penalidade obscena e desproporcional. É a mesma turma que diz que defende a família, mas assim que as forças de segurança matam uma criança em alguma favela do Rio de Janeiro, começam a difamar a vítima e dizer que ela era do tráfico – mesma estratégia que usaram contra a memória da vereadora Marielle, depois de seu assassinato.

Quando crianças são mortas em bombardeios no Oriente Médio, diga que eram terroristas, quando forem detidas nas fronteiras, lembre-se das gangues.

Não esperem nada diferente, afinal de contas já nos ensinaram que o mal é banal.

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A Cruzada contra os dados

“Aí chefia você sabia que os banqueiros são comunistas?”

É de fácil acesso a caricatura das humanidades como coisa de “maconheiro em DCE”, falar de impostos, dizer que o dinheiro vai para outras áreas. Mas o verdadeiro propósito desse governo é desmontar todos os meios institucionais de se apreender e medir os impactos de suas políticas, vide os cortes no Censo.

A cruzada dos rastejantes não é contra “o maconheiro comunista”, é contra qualquer pessoa ou instituição que tenha capacidade técnica de apontar o tipo de destruição moral e institucional que eles planejam. Miram caricaturas da esquerda mas acertam em liberais capacitados a contradizer suas mentiras, como a Ilona Szabó.

O embate de Viktor Orbán com a Universidade da Europa Central é um exemplo vivo disso. Uma instituição que é bastião do liberalismo expulsa de um país porque sua ciência não é governista o suficiente. No Brasil, os liberais de encomenda vão tentar racionalizar as declarações de Weintraub com as falácias costumeiras (e idiotizadas) sobre o trabalhador braçal que paga imposto que sustenta o curso de humanas. Não se empolguem, vocês serão os próximos.

A luta do governo é contra toda e qualquer transparência nos dados. Do decreto de sigilo nos estudos sobre a reforma da previdência às maracutaias do condenado Ricardo Salles para censurar dados sobre desmatamento. Quem são os alvos preferenciais da ira dos governistas e seu rebanho? Jornalistas, agências de checagem de fato, institutos de pesquisa de opinião. Combate às humanidades é só mais uma etapa dessa guerra.

A educação do Brasil está nas mãos de grandes gênios que acham que os comunistas aparelharam departamentos de Administração de Empresas e Ciências Atuariais, que comunistas são donos de grandes empresas, que ocupam o topo das organizações financeiras.

Quem não acredita é doutrinado.


O Evangelho Segundo Pinóquio

Quanto maior a mentira mais as pessoas acreditam nela

Ser um crente na década de 1980 não era fácil. A metade católica da família não entendia porque a outra metade havia se convertido a uma religião diferente. As avós achavam um absurdo que as crianças não fossem batizadas nos primeiros anos de vida, que não tivessem madrinhas e padrinhos. “E se esses meninos morrerem antes do batismo?”. Na escola vez ou outra alguém fazia uma piada, quase sempre “crente do do rabo quente”. Muita gente falava em “pastor safado”, “pastor ladrão” e se perguntava o que aquelas figuras faziam com o dinheiro do dízimo.

Mas as coisas não eram tão ruins. Os parentes mais velhos, todos convertidos, contavam coisas mais absurdas, violentas até, que aconteciam nas décadas passadas. Um irmão que fora agredido na rua. A pequena igreja do outro bairro que precisava realizar seus cultos a porta fechadas porque muitas vezes a molecada jogava pedras lá dentro. Algumas coisas daquela época não mudaram. As pessoas viviam pulando de igreja em igreja: da Batista para a Metodista, da Presbiteriana para a Quadrangular. Diante de uma indagação a respeito de qual era a religião a resposta era “sou evangélico”. Todos haviam se convertido numa mesma igreja mas anos depois ninguém mais a frequentava.

A Bíblia Ilustrada em vários volumes decorava a maior estante da casa. Dividia espaço com aqueles aquelas coletâneas do Reader’s Digest, uma enciclopédia Barsa, uma enciclopédia da Editora Abril. As histórias da Bíblia eram contadas ora como fatos históricos, ora como parábolas, os sofrimento dos hebreus como “povo de Deus” frequentemente era comparado ao sofrimento dos evangélicos. Estes estariam destinados a ser os mártires num futuro próximo, no qual o mundo seria governado pelo anticristo.

A obsessão com o anticristo e seu “governo global” eram uma constante em algumas igrejas que eu frequentava. Diziam que a revolução sexual, o divórcio, as drogas e, vejam só, a astrologia eram parte de um plano maligno para corromper as famílias e afastar as pessoas de Deus. E como a vida era dividida entre “a Igreja” e “o Mundo”, puro e impuro, espírito e carne, havia muitas discussões sobre a natureza das coisas. Carnaval? Nem pensar! Era o símbolo maior da devassidão, o período onde vidas e famílias seriam destruídas. Cerveja? Do diabo, leva ao alcoolismo. Heavy Metal? Leva ao satanismo. A lista de coisas demoníacas e impuras variava consideravelmente e podia incluir novelas, quadrinhos de super-heróis e, para os mais ousados, até mesmo coisas banais como o programa do Chaves ou o Fofão. Não por causa do conteúdo mas alguém sempre dizia ter  grandes evidências de que os atores tinham pacto com o diabo.

Religiões afro-brasileiras e o kardecismo também eram alvos constantes de ataques. Quem fosse a uma igreja neopentecostal teria a chance de ver alguém falando de sua experiência como babalorixá e como os orixás seriam demônios. Se tivesse sorte mesmo poderia até assistir a uma possessão e um exorcismo. Os ataques ao catolicismo também aconteciam, destacando o “culto a imagens” o qual os católicos supostamente fariam.

Mas esses detalhes prosaicos da fé não eram o principal elemento na vida de um crente. A escola dominical, o culto e a leitura da Bíblia eram o centro de uma vida que deveria ser vivida com virtude. Não lembro de tanta gente pregando que os postulados científicos seriam necessariamente incompatíveis com os escritos Bíblicos.  E se havia algum preconceito contra o crente havia também algum reconhecimento desse esforço em viver na retidão. O pastor podia ser safado mas o crente não raro era considerado honesto, trabalhador, dedicado. Isso numa época na qual os evangélicos não passavam de 10% da população.

Até o final da década de 1990 muito disso já havia mudado. Testemunhos de conversão e redenção falavam cada vez mais sobre o diabo e o dinheiro. A teologia da prosperidade havia se misturado a essa demonologia de “combate espiritual”. Imersos numa retórica de guerra, os cultos traduziam questões religiosas para um esforço bélico: não apenas combater o mal, na figura de Satanás, como também atacar seus supostos servos. Cresceu o mercado gospel, de música, livros e shows. Toda essa mídia, é claro, não era “do Mundo” e era apresentada aos crentes como algo seguro de se consumir.

Eu já era reticente a muitos aspectos da igreja, mesmo quando criança. A maioria dos pastores nas igrejas que eu frequentava era bem formada e prudente, mas aqueles que ensinavam nas escolas dominicais, os irmãos que vinham dar testemunho e os missionários que nos visitavam eram diferentes. Os que haviam passado por cursos de teologia tinham alguma defesa contra a enchente de lixo conspiracionista que chegava no Brasil vinda de igrejas dos Estados Unidos. Mas mesmo ali era possível escutar coisas absurdas: maluquices sobre satanistas que envolviam Xuxa e os Cavaleiros do Zodíaco, pessoas que reclamavam que a escola preparava seus filhos para o reinado do anticristo, pregações sobre como os desenhos da Disney estimulavam crianças à homossexualidade…

Tudo isso era permeado por uma retórica muito perturbadora que condenava qualquer um que não aceitasse Jesus Cristo à danação eterna ao mesmo tempo que absolvia aqueles que se autodeclaravam cristãos de quaisquer pecados ou crimes cometidos “em nome de Jesus”. Quando perguntei a um missionário se os trambiques de pastores televisivos não seriam nocivos recebi como resposta que o Evangelho deveria ser pregado através de quaisquer meios e isso era o que importava. A vigilância mútua entre irmãos caminhava de mãos dadas com uma hipocrisia crescente. Durante o ano no qual frequentei uma dessas igrejas cujos cultos parecem shows não demorou para que eu entendesse que a performance estava no centro da preocupações, muito acima de questões de fé. E como a lista de “coisas do Mundo” não parava de crescer ela logo englobava a quase totalidade das coisas pelas quais eu nutria interesse.

Ser um bom cristão, vejam só, era consumir entretenimento gospel.

E ainda havia a política. O parente dizia que era importante votar no Anthony Garotinho porque ele ia trazer justiça para esse povo tão perseguido que é o evangélico no Brasil. Garotinho foi preso e o parente continua dizendo a mesma coisa mas agora os candidatos são outros.

A mistura explosiva entre teorias da conspiração, proselitismo político, neopentecostalismo e teologia da prosperidade produziu o que é o Brasil de hoje. A primeira-dama é evangélica, o presidente foi batizado pelo pior tipo de pastor que o protestantismo produziu. Isso, infelizmente, não veio sem um enorme custo: o crente brasileiro se tornou cada vez mais conivente com a mentira e o obscurantismo, se transformando num instrumento de enganadores profissionais que engendram política e religião para benefício próprio.

Ao contrário do que defende o ateísmo militante eu não acho que as religiões são fabricadas a partir de uma mentira. Religiões são feitas de mitologia, tradição e experiência religiosa. A relação entre crer e experimentar é algo muito importante para conseguir entender porque as pessoas aderem a religiões. Muitas pessoas se convertem ou tornam-se dedicadas à religião a partir de um evento onde elas sentem ou experimentam algo sublime, diferente, maior do que elas mesmas. É um tipo relato comum a umbandistas, freiras ou convertidos evangélicos.

A mentira não é uma premissa para a experiência religiosa e, no entanto, ela pode ser um instrumento muito útil para aqueles que desejam conquistar e exercer o poder.

O tipo de proselitismo que se criou no meio evangélico nas últimas décadas é algo patológico. Várias das figuras políticas mais absurdas que o Brasil gestou vieram desse meio, foram eleitas por fiéis, fizeram campanha usando da Igreja. Marco Feliciano, Marcelo Crivella e Magno Malta são exemplos famosos da política feita nas igrejas e, no entanto, é possível que ninguém ilustre mais perfeitamente a estranha trajetória do evangelismo brasileiro do que a Ministra Damares Alves.

Ativista, pastora e, até então, assessora de Magno Malta, Damares é um exemplo perfeito da mistura entre proselitismo político e a mais absoluta falta de pudor ao mentir. E não é por coisas como “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, frase tão óbvia dentro do senso comum do brasileiro a respeito de gênero que chega a ser estranho que tenha causado tanta polêmica. Agora, imaginem o que é a possibilidade de pregar para milhares de pessoas dizendo coisas como: “na Holanda os pais masturbam bebês“; a ex-prefeita Marta Suplicy teria gastado 2 milhões de reais para “ensinar professores em creches a masturbarem bebês”; ou que “turistas vão a hotéis fazenda para transar com animais“. A questão do vídeo sobre “infanticídio indígena” criado e divulgado por uma ONG a qual a ministra integrava envolve outra série de mentiras, algumas contadas para os próprios indígenas que participaram de sua realização. A ministra, que hoje ocupa um ministério responsável pela Fundação Nacional do Índio, nunca procurou as autoridades para tratar da formalização de sua “filha adotiva”, uma menina indígena levada por uma missionária sob a alegação de um “resgate” – mas cuja avó da menina diz ter sido um rapto. Quando essa questão ganhou a capa da revista Época, Damares contornou a situação contrariando a si mesma e negando a existência de qualquer processo de adoção. Também postou fotos com um casal de indígenas que consta na certidão de nascimento como os pais da menina, mas que não seriam seus pais biológicos nem teriam sido responsáveis por sua criação, já que a menina estava sob os cuidados a avó quando foi levada.

Essa quantidade de mentiras óbvias faz parte da nova cara do evangelismo no Brasil. Não basta um ponto de vista conservador ou justificativa bíblica para ser contra a educação sexual nas escolas, não bastam as escrituras para defender a evangelização dos povos indígenas, é preciso que o pastor minta para seus fieis. E, mais do que isso, pastores como Damares trabalham de modo a fundir os ensinamentos bíblicos e o senso comum a essas mentiras. A autoridade pastoral acaba usada para promover o tipo mais rasteiro de proselitismo e pânico moral. Os custos sociais são enormes mas o sucesso desse modelo na política é inegável.

Bem-vindos à era do Evangelho Segundo Pinóquio.

 

 

Liberalismo para a Servidão

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“Pode conduzir ao abismo mas é para o seu bem”

A consolidação da candidatura de Jair Bolsonaro como representante da direita brasileira nos trouxe a um lugar assombroso e peculiar. À medida que sua chapa fala mais e mais abertamente sobre a possibilidade de algum tipo de intervenção na democracia (seja o aumento artificial e unilateral dos ministros do STF, uma nova Constituição sem Constituinte, ou mesmo a defesa explícita de um golpe de Estado ou de autogolpe) mais os nossos colegas amantes da liberdade apostam suas fichas num eventual governo Bolsonaro. “É que o Paulo Guedes vai fazer as reformas, privatizar, abrir nossa economia“.

É isso mesmo. Muitas das mesmas figuras que passaram anos esperneando contra um suposto caráter autoritário dos governos do Partido dos Trabalhadores agora tentam criar justificativas sobre como um eventual governo de entusiastas da Ditadura Militar nos conduziria à liberdade. Vejam só! Talvez se esqueçam de que uma suposta liberdade econômica agora teria um novo preço: a liberdade política.

O que nós assistimos é mais um capítulo na novela latino-americana onde supostos defensores da liberdade ajudam a rifar a democracia em troca de algumas reformas “desejadas pelo Mercado”. Muitos lembram da escusa relação da Escola de Chicago com Chile de Pinochet, cujo legado patético é uma mentira, e continua motivando estranhos desejos por “outros Pinochets” como reformistas ideais, já que podem conduzir sua política sob o auspício dos canhões e dos porões.

Eu gosto também de outro exemplo, mais recente e mais instrutivo e que envolve um pensador liberal com muito mais lastro do que um aventureiro como Guedes.  Hernando de Soto Polar é um economista peruano premiado e respeitado, conhecido por seu trabalho sobre pobreza, economia informal e direitos de propriedade – especialmente a propriedade da terra. De Soto é também conhecido por sua participação no governo de Alberto Fujimori, presidente eleito em 1990 que mais tarde governaria o Peru como um ditador.

Fujimori fez suas reformas liberais a fórceps, fechou o Congresso, criou uma polícia pessoal que agia como grupo de extermínio (Grupo Colina) e escalou a guerra do Estado peruano contra o Sendero Luminoso de maneira brutal, legalizando milícias e usando as Forças Armadas para praticar atrocidades contra comunidades de camponeses consideradas “suspeitas”. Comandou a esterilização involuntária de 200 mil mulheres mulheres pobres. Foi um presidente popular, apesar de tudo, mas terminou seu mandato em total desgraça: denunciado por crimes contra a humanidade, corrupção, envolvimento com o narcotráfico. Fugiu do Peru mas anos mais tarde foi preso no Chile e extraditado de volta.

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Funeral paras as vítimas do Massacre de Barrios Altos

Mas mesmo com Fujimori preso o Fujimorismo não acabou. Foi herdado por seus filhos, Keiko e Kenji Fujimori. Em 2010 Keiko Fujimori fundou o Fuerza Popular, partido que reunia os fujimoristas peruanos. Ela concorreu às eleições presidenciais em 2011 mas perdeu para o militar reformado Ollanta Humala e seu partido conseguiu 37 assentos no Congresso Nacional.

E Soto Polar? Ajudou Fujimori a implementar suas reformas mas se afastou dele depois do autogolpe. Sua relação com o fujimorismo, no entanto, permaneceu. Nas eleições de 2016, quando Keiko Fujimori era a candidata preferida para a presidência e os fujimoristas do Fuerza Popular se mostravam como favoritos para conseguir maioria no Congresso Nacional lá estava Hernando de Soto Polar novamente, apoiando Keiko Fujimori – apesar, das inúmeras denúncias do envolvimento de seu partido e sua candidatura com o narcotráfico.

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Fool me once…

Keiko Fujimori não venceu as eleições presidenciais de 2016, a vitória de Pedro Pablo Kuczynski (nosso querido PPK) se deu por uma margem ínfima. Mesmo com maioria  no Congresso o Fujimorismo não se acertou, e de lá para cá vem sofrendo derrotas atrás de derrotas e perdendo um de seus maiores triunfos: o apoio do judiciário corrupto herdado da ditadura Fujimori.

Esse pequeno conto traz alguma lições para nossa realidade. A primeira delas é a de que os liberais latino americanos muitas vezes são coniventes com regimes ditatoriais desde que possam fazer suas tão sonhadas reformas. “Democracia” e “liberdade” são valores de conveniência, palavras que devem ser acionadas quando se fala de governos autoritários com um viés de esquerda – ou aqueles com os quais governos de esquerda mantém relações.

No clima de absoluta desinformação e abandono institucional das eleições de 2018 muitos liberais se mostraram prontos a abraçar uma candidatura que se desenha autoritária e violenta desde seu primeiro momento. “Não é o PT”, dizem, e quanto mais evidências se amontoam de que o mandato do bolsonarismo promete violência e coerção mais se empenham na produção de uma falsa simetria em relação ao Partido dos Trabalhadores. O PT, no imaginário desses liberais, deixou de ser um partido de centro-esquerda com problemas de corrupção para se tornar um projeto ditatorial. Cada fala de José Dirceu deve ser tomada como uma ameaça imperativa e literal. Cada atentado contra a democracia gestado na cúpula do bolsonarismo deve ser trivializado.

A chapa pode ameaçar golpe de Estado sucessivas vezes, desde que condene os regimes de Maduro e Ortega. A violência pode ser estimulada e praticada nas ruas desde que seja contra a petistas. Agora dentro do paradigma do liberal-bolsonarismo muito cabeça de planilha se sente contemplado e inserido dentro de um movimento “verdadeiramente popular”: uma coalizão improvável de militares, pastores e youtubers, da qual participam por meio das promessas reformistas do fiador, Paulo Guedes.

Mas o bolsonarismo não é o fujimorismo e seu caráter liberal-reformista pode ser apenas um delírio. O preço dessa soberba, como de costume, também será terceirizado.

#76 Refugiados Venezuelanos e Xenofobia – com Lucas Berti

Viracasacas Podcast

Saudações pessoas! Nessa semana os Viracasacas, mesmo desfalcados da presença de Gabriel Divan, tiveram uma ótima conversa com Lucas Berti sobre a questão dos refugiados venezuelanos no Brasil e os discursos e atos xenófobos realizados nos últimos tempos. O tema é importantíssimo e, infelizmente, conta com pouco interesse político para ser solucionado. Ouve aí!

O episódio começa aos 7m28s

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Catar.se A História (quase) definitiva de Monty Python

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Dicas Culturais

Atlanta

Cuba and the Cameraman

Viva la revolución –…

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A Reversal Destra

temer-comunista

Marxismo-Temerismo

Michel Temer comunista? Bilionários socialistas? Facebook stalinista? A Nova Direita repete diariamente que políticas socialistas não funcionam, que o comunismo não deu certo, mas aparentemente vivemos num mundo alternativo onde a URSS venceu a Guerra Fria: da ONU à Wall Street, todas as instituições do mundo contemporâneo estariam infiltradas por alguma versão da KGB.

Como tentei demonstrar no artigo das “pequenas verdades” a Nova Direita constrói seu pensamento com tomando como base uma série de falácias, de meias verdades.  A mais poderosa e recorrente delas é a de que “todo mal vem da esquerda“. Um dos elementos da filosofia política Nova Direita é o da negação do princípio de igualdade dos seres humanos, por isso o insistente ataque aos Direitos Humanos universais. Uma vez que Declarações de Direitos são construções do liberalismo, das revoluções burguesas que romperam com o absolutismo, faz-se necessário ampliar o conceito de esquerda. Essa “esquerda”, apresentada da forma mais vaga e abrangente possível, passa a incluir liberais progressistas ou qualquer um que não simpatize ou não queira colaborar com a Nova Direita.

Isso permite à Nova Direita produzir conceitos alternativos para certos fenômenos do capitalismo, ou mesmo internos às dinâmicas políticas da própria direita, num processo contínuo de “transformar em esquerda” qualquer coisa que incomode seus interesses, seus fiéis, seu público, seus membros. Esse mecanismo de dissimulação permite afirmar a já clássica falácia de que “o Nazismo é de esquerda“, inventar que a queda do Império Romano teve relação com o socialismo,  transformar a senadora Ana Amélia Lemos (PP) ou o apresentador Datena em cripto-socialistas – ou dizer que José Sarney tentou implantar o comunismo no Brasil.

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E você, pobre mortal, não sabia que Wall Street adora o esquerdismo.

A tendência de muita gente na esquerda é de tentar responder a essas maluquices com fatos, argumentar longos contrapontos, mostrar dados e notícias, chamar a outra pessoa de ignorante, dizer que ela precisa “estudar história”, ou fazer chacota. Isso tudo só faz sentido se assumirmos que a política do absurdo propaga tanta loucura de forma não-intencional.

E não é o caso. A aparente ignorância e desconexão da realidade está contida num método, numa forma de comunicação extremamente eficaz: a repetição. O método consiste em criar a mentira, em sua forma mais absurda ou abjeta, e fazê-la ser igualmente repetida por fiéis e céticos. Depois que a mentira estiver bem estabelecida por meio da repetição qualquer um que desconfie dela será tratado como um inimigo. Entre cínicos, trolls e imbecis uma pequena verdade é fabricada. Ela precisa ser confortável e triunfalista, taxativa, desprovida de nuance e, de preferência, completamente absurda.

Esse é o método que permite que Michel Temer seja chamado de “apenas mais um comunista” pelos grandes intelectuais do Instituto Liberal. Temer se aliou a toda a direita brasileira, seu partido lançou um programa de reformas extremamente liberal chamado Ponte para o Futuro, sua curta presidência foi extremamente impopular, exceto no mercado financeiro. Diante desses fatos, como Temer poderia ser um comunista? Tanto faz. Basta que digam que o mercado financeiro também é comunista, como os gênios do MBL já nos explicaram.

Esse tipo de excrescência, de maneira proposital ou não, é o que abriu caminho para o crescimento de apelos por golpe militar e também explica, em parte, o êxito da candidatura de Jair Messias Bolsonaro. Em ritmo permanente de campanha desde 2015, Bolsonaro conseguiu se firmar como o único candidato que é “direita de verdade” usando de uma lógica simples e eficaz: pega carona na quantidade imensa de material que afirma que a corrupção seria um problema da esquerda, repete incessantemente que não é corrupto (apesar de quaisquer evidências contrárias) e assim torna-se, por extensão, o único candidato de direita. Ele pode dizer que é contra mídia, contra “o sistema” mas é um fruto gerado no âmago do establishment antipetista

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Desaprovou o General Mourão? Comunista!

Esse esforço contínuo de transformação e reafirmação não tem qualquer compromisso com nenhum nível de argumentação factual. As reformas de Maurício Macri falharam? Evite discutir a natureza delas, ou fazer uma análise mais demorada sobre os desafios da economia argentina e a relação do panorama atual com aquele do início dos anos 2000. Chamemos outro “intelectual”, o fundador do Instituto Liberdad Querida, que ele define como o “Tea Party argentino” para que ele assegure aos leitores do Antagonista que Macri nunca foi nada mais que um social-democrata…

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Jornalismo de qualidade.

E nada disso é uma questão de ajuste ou coerência. É possível que governos não executem o que prometeram em campanha ou hajam em desacordo com a coalizão ou plataforma que os elegeu. Não é o caso argentino. Mas agora que Macri parece ter falhado, não por suas intenções mas por suas ações, é preciso que ele seja jogado para fora do espectro político dos bons. Agora Macri deve ser “apenas mais um social democrata”.

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Stálin dançou foi pouco.

Para além da política institucional, esse tipo de estratégia é usado para falar sobre qualquer coisa: da crise dos refugiados à indústria cultural. O último sucesso do pop não se deve à combinação de consumo massificado e hiper mídia, trata-se um complô da Escola de Frankfurt – e não, não interessa que você mostre que Adorno criticava JUSTAMENTE a cultura de massas. Nunca ouviu falar que o Esquenta era um programa de extrema-esquerda? Se o público não gosta do Esquenta e não gosta da esquerda logo o Esquenta é de esquerda. Extrema-esquerda. Regina Casé era uma extremista do funk.  É o temido Marxismo cultural!

Há algo terrivelmente eficaz nessa estratégia. Ela permitiu que Donald Trump criticasse Hillary Clinton como a “candidata de Wall Street” na campanha presidencial de 2016, muito embora boa parte de seu staff, incluindo o coordenador Steve Bannon, viessem do mundo das finanças. Desde a Crise de 2008, que aconteceu sob a batuta de um governo Republicano, a relação entre Wall Street e Washington se tornou ainda mais impopular.  Movimentos como o Tea Party, que tentaram “renovar” o partido Republicano com um populismo de direita, diziam odiar Wall Street – embora sua agenda apontasse no sentido contrário. Vencida a eleição nada impediu que Donald Trump, numa ação típica de um membro do partido Republicano, aprovasse cortes em impostos que beneficiaram Wall Street, ou representasse o mercado financeiro como “vítima” de regulações governamentais que mais tarde seriam suavizadas por seu governo.

A fantasia de que o mundo é dominado por uma suposta hegemonia da esquerda também é muito útil para a extrema-direta. É uma maneira mover a Janela de Overton, o conjunto das ideias toleradas no discurso público, para a direita. Se Angela Merkel, líder do partido de direita União Democrata-Cristã, for repetidamente chamada de socialista fica bem mais fácil que para os políticos da AfD, partido de extrema-direita, se passarem por conservadores ou direitistas convencionais – mesmo que desde de sua fundação o partido tenha caminhado rumo a posturas cada vez mais extremas.

 

A Política do Absurdo

 

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Então aqui estamos de novo. O candidato da “intelectualidade conservadora” não está satisfeito em atacar “o comunismo” ou mesmo a esquerda. Ele quer dizer coisas absurdas, factualmente erradas, mas não aquelas nas quais o campo da controvérsia tem um pequeno espaço para respirar.

Ele quer mentir. E não contar qualquer tipo de mentira mas aquela que é facilmente desmentida por dezenas de milhares de especialistas e centenas de milhares de documentos. Aquela que é desmentida por testemunhas oculares, pelos sobreviventes e pelos cadáveres. E quando ele for desmentido por quem dedicou uma vida ao assunto, pela imprensa ou por qualquer pessoa com um mínimo de bom senso ele vai se fazer de vítima. E não apenas vai usar essa posição de vítima mas se apegar a ela para dizer que ele e os seus estão sozinhos contra alguma “conspiração esquerdista”.

“Todos aqueles que discordam de mim defendem ditaduras” dizem seus seguidores, 10 segundos depois de defenderem uma ditadura do passado ou, sem qualquer cerimônia, dizer que desejam implantar uma ditadura no futuro.

A posição de vítima é um componente essencial das Novas Direitas – justo aquelas que tanto denunciam um suposto “vitimismo”. Serve para desenhar um establishment inimigo imaginário (composto por qualquer um que se pronuncie contra seus absurdos), e também para garantir o apoio, tácito ou declarado, de pessoas que foram convencidas de que todo mal vem da esquerda.

A esquerda, nesse caso, é um conceito elástico o suficiente para caber todos os inimigos do líder e seus seguidores. Ela começa com os socialistas mas logo passa a incluir progressistas, liberais, cidadãos preocupados, ou mesmo qualquer um que não declare seu apoio. E os inimigos, como mostrou Umberto Eco, precisam ser retratados como simultaneamente fortes e fracos, onipotentes e débeis, de preferência engajados em alguma conspiração sinistra contra tudo o que os seguidores mais amam: sua família, seu modo de vida.

E o absurdo é o que os une. Ele torna possível aos “intelectuais conservadores” dizer qualquer coisa sem que haja cobrança em suas próprias hostes. Aquela frase de efeito que Churchill nunca disse, o ensaio onde se defende a segregação racial, a tentativa de reescrever a história através de um revisionismo troll. Entre os imbecis e os cínicos todos concordam.

Não adianta falar que essas pessoas  “precisam aprender história” ou “precisar ler livros de história”. Elas leem, assistem documentários ou pagam cursos para qualquer que diga o que elas querem ouvir. Elas precisam das pequenas verdades, algo que espante as dúvidas que se empilham no fundo da cabeça, que confirme que todos os problemas que assistimos no presente seriam fruto da “degeneração promovida por um grande plano levado a cabo por bilionários comunistas.”

A política do absurdo é um projeto. E se estamos na era da política como entretenimento, uma espécie de reality-show distorcido e sádico, eu diria que é um projeto muito bem-sucedido. Não é possível combater isso apenas com informação, contra argumentos e indignação – nesse ponto talvez a sátira e o humor funcionem de forma mais eficaz.

Mas mais do que nunca é preciso que haja outro projeto. 

Ensaios para o fascismo estão em pleno curso

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Ensaios para o fascismo estão em pleno curso (tradução de artigo de Flintan O’Toole, do Irish times)

Bebês em gaiolas não foram um “erro” de Trump, mas um teste de marketing para a barbárie.

Para compreender o que está acontecendo no mundo agora é preciso refletir sobre duas coisas. A primeira é que estamos em plena fase de ensaio. A segunda é que o que está sendo testado é o fascismo, uma palavra que deve ser usada com cuidado, mas da qual não se deve esquivar quando ela se percebe com tanta clareza no horizonte. Esqueça o “pós-fascismo”, o que estamos vivendo hoje é pré-fascismo.

É fácil descartar as atitudes de Donald Trump por ele ser um ignorante, até porque ele realmente o é. Entretanto, ele tem um conhecimento bastante apurado: testes de marketing. Ele se criou nas colunas sociais dos tabloides de Nova Yorque, em que as celebridades são forjadas…

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Eh Várzea #12 – A fronteira e o trumpismo brasileiro

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Saiba quem são as figuras por trás da decisão do governo Trump de adotar uma política de “tolerância zero” em relação a migrantes e refugiados, que acarretou na separação de mais de 3 mil crianças de seus pais. Ao final discutimos o como e o porquê do bizarro fenômeno do trumpismo brasileiro.

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Muito antes de Trump havia Ross Perot

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Eh Várzea #9: O Policial e o Professor

Viracasacas Podcast

Frequentemente volta à pauta a ideia de que a direita, ou o conservadorismo, promoveriam as liberdades individuais ao passo que a esquerda seria coletivista. Argumento mobilizado sempre que alguém quer reclamar da suposta tirania do “politicamente correto”. Mas será mesmo? Uma rápido comentário sobre as ideias e projetos promovidos pela direita “liberal conservadora” no Brasil mostra que não é tão simples assim.

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