Ensaios para o fascismo estão em pleno curso

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Ensaios para o fascismo estão em pleno curso (tradução de artigo de Flintan O’Toole, do Irish times)

Bebês em gaiolas não foram um “erro” de Trump, mas um teste de marketing para a barbárie.

Para compreender o que está acontecendo no mundo agora é preciso refletir sobre duas coisas. A primeira é que estamos em plena fase de ensaio. A segunda é que o que está sendo testado é o fascismo, uma palavra que deve ser usada com cuidado, mas da qual não se deve esquivar quando ela se percebe com tanta clareza no horizonte. Esqueça o “pós-fascismo”, o que estamos vivendo hoje é pré-fascismo.

É fácil descartar as atitudes de Donald Trump por ele ser um ignorante, até porque ele realmente o é. Entretanto, ele tem um conhecimento bastante apurado: testes de marketing. Ele se criou nas colunas sociais dos tabloides de Nova Yorque, em que as celebridades são forjadas…

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Eh Várzea #12 – A fronteira e o trumpismo brasileiro

Viracasacas Podcast

Saiba quem são as figuras por trás da decisão do governo Trump de adotar uma política de “tolerância zero” em relação a migrantes e refugiados, que acarretou na separação de mais de 3 mil crianças de seus pais. Ao final discutimos o como e o porquê do bizarro fenômeno do trumpismo brasileiro.

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Muito antes de Trump havia Ross Perot

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Eh Várzea #9: O Policial e o Professor

Viracasacas Podcast

Frequentemente volta à pauta a ideia de que a direita, ou o conservadorismo, promoveriam as liberdades individuais ao passo que a esquerda seria coletivista. Argumento mobilizado sempre que alguém quer reclamar da suposta tirania do “politicamente correto”. Mas será mesmo? Uma rápido comentário sobre as ideias e projetos promovidos pela direita “liberal conservadora” no Brasil mostra que não é tão simples assim.

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Viracasacas #59 – A verdade sobre o “Globalismo”

De onde veio essa história de globalismo? Por que tanta gente anda obcecada com o bilionário George Soros? Teriam os Reptilianos infiltrado os Illuminati para controlar a economia global? O sistema-mundo, da teoria à teoria da conspiração no .

 Nós e o discutimos como a figura de Soros foi associada ao caos da liberalização nos Estados pós-comunistas na década de 1990. Como a teoria da conspiração do globalismo foi gestada nos EUA e no Leste Europeu e como ela se tornou um dos pilares da Nova Direita. Também falamos sobre como as “democracias iliberais” da Polônia e da Hungria (sob o PiS e o Fidesz, respectivamente) não são populares apenas por seu discurso conservador, mas têm um enorme capital político devido à suas políticas econômicas.

Em nações que nunca experimentaram algo próximo à social democracia, o nacionalismo populista e paranoico de Jarosław Kaczyński e Viktor Orbán ocupa confortavelmente o horizonte de possibilidades.Falamos um pouco também da Ucrânia (cuja situação é muito mais complicada) e da Rússia de Putin e das ideologias etno-nacionalistas gestadas ali.

Quem serão os monstros de amanhã?

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Oh yeah

Aquela coisa que sempre me intriga: toda essa celebração da condenação e prisão do Lula funciona como uma catarse como foi a deposição de Dilma. Os problemas que se atribuem exclusivamente a ele, ao PT ou à esquerda logo tomam forma cada vez mais arcana e generalizada.Tudo o que gravita em torno da esquerda, partidária ou não, é atacado como fonte de todo o mal. A educação vai mal? Culpa do Paulo Freire! A criminalidade avança? Culpa dos Direitos Humanos! A catarse vem, pouco muda e logo é necessário inventar novos monstros.
Quanto mais generalistas, absurdos e imateriais mais esses monstros serão politicamente úteis. A esquerda passa a ser retratada uma força que está em qualquer lugar, aparelhando qualquer coisa, ameaçando sua família, seus modo de vida, sua propriedade. Muita gente mantém a tese de que as paranoias de parte da direita sobre “bolivarianismo” ou “comunismo” vão diminuir com a prisão de Lula e a impossibilidade de sua candidatura. Eu discordo por um motivo simples: essas paranoias não carecem de um fundo de coerência.
A catarse que alimenta o espectro partidário sobre questões duras e difíceis sobre governo, corrupção, as relações entre o setor público e privado, não vai sumir. É uma narrativa útil demais, da mesma natureza que permite, por exemplo, ignorar a corrupção nas Forças Armadas.
Há vários limites aí. A transformação inevitável de integrantes do poder judiciário em um atores público que, por estarem supostamente alheios às questões da política (tornada corrupção) seriam melhores mais objetivos… a menos que tomem a decisão “errada” – chamemos os generais.
E nesse ponto há o risco de que a justiça não seja servida em igual medida a todos os aqueles nos radares, ou que o pode judiciário não consiga satisfazer todas as expectativas construídas em torno dele. Isso o tornaria outro poder da República em crise? Não há resposta fácil para isso. A quantidade de clamores pelo fechamento do Congresso ou do STF pode não ser numericamente relevante (ainda). Já é um problema que a sombra disso tenha se tornado parte corriqueira de um discurso que acha que a saída está fora da democracia.

As “pequenas verdades” e a Nova Direita

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A Revista Época não entendeu nada

Elogio da tortura, negação da história, anti-intelectualismo, macarthismo, desprezo por quaisquer valores democráticos, paranoia nacionalista. Mistura-se tudo isso com dispositivos para a destruição do debate público: notícias falsas, contextos mentirosos para imagens verdadeiras, vídeos tratando de questões internacionais com legendas falseadas. Eis a Nova Direita.

Os arquitetos da Nova Direita brasileira, polemistas como Carlos Andreazza ou Rodrigo Constantino, negam esse panorama. Tentam dar um verniz intelectual a essa salada ignorando quantos não estão soterrados sobre inúmeras camadas de paranoia, repetindo algo sobre George Soros e Globalismo, enquanto vozes mais poderosas arrastam seu público para uma espécie de culto da própria personalidade. Christian Dunker tem razão, Olavo já perdeu a sua.

Mas as “pequenas verdades” vendidas pela Nova Direita fazem sucesso no mercado de ideias. Algumas são confortáveis e triunfalistas: desenham o mundo como um sistema perfeito, perturbado pelas “mentiras dos esquerdistas” e pela intervenção do Estado na vida do cidadão. Outras, mais estranhas, pregam o retorno ao absolutismo, a glorificação do passado Europeu, a ideia torta de que o brasileiro pertenceria ao “Ocidente” do qual tanto fala a Nova Direita do Hemisfério Norte.

As narrativas vendidas pela Nova Direita são pequenas verdades por dois motivos: são realmente pequenas e cabem em uma frase, num meme, não possuem qualquer nuance; por outro lado são vendidas enquanto “verdades” mas sua dose de verdade é mínima, ínfima. Podem nascer como argumentos mas frequentemente morrem como falácias.

O cardápio de pequenas verdades da Nova Direita é variado. Às vezes um pedaço de uma discussão política mais ampla (o papel do Estado na economia), noutras uma falácia absoluta (“checagem de fatos é censura“). Todas contribuem para formar o mosaico de paranoia e desinformação que tomou conta do jogo político político global nos últimos quatro anos. As pequenas verdades da Nova Direita brotam de muitos solos. Algumas crescem a partir de questionamentos aos chavões da esquerda militante, outras nascem da esfera de influenciadores digitais cujo único compromisso é com o ultraje e a audiência.

No edifício das pequenas verdades toda discussão política deve estar esmagada entre o maniqueísmo e o relativismo. Qualquer argumento contra a Nova Direita é passível de ser “refutado” com alguma frase sobre Stálin ou Mao. Mas não tente citar Hitler ou Mussolini como contrapontos autoritários de direita: já se colocou à venda uma pequena verdade confortável que assegura aos conservadores que todo o mal do autoritarismo dos anos 1930 veio da esquerda!

Quando seus líderes falam sobre assassinato ou perseguição de dissidentes políticos a Nova Direita logo diz que tudo não passa “de discurso”, “piada” ou dizer que as palavras do grande líder não podem ser interpretadas literalmente. O mesmo não pode ser dito daqueles que a Nova Direita considera seus “inimigos”. A esses cabe a mais cuidadosa análise de tudo o que já foi dito ou feito. Os inimigos devem ser expostos como hipócritas usando de frases ou expressões pinçadas fora de contexto e reproduzidas dezenas de milhares de vezes nas redes sociais. Frases ou expressões as quais, aliás, a Nova Direita se orgulha de poder falar, já que não precisa prestar contas “ao politicamente correto” e reserva para si mesma o domínio exclusivo sobre os campos da metáfora, do sarcasmo, da ironia e do humor.

Nesse ponto o leitor pode estar se perguntando se algo do que foi descrito aqui não valeria para setores da esquerda. Talvez. O empobrecimento do debate público parece um fenômeno generalizado, potencializado pelas mídias sociais. E não digo isso porque acho que é necessário ser “intelectual”, “refinado” e usar jargões para discutir quaisquer tópicos. Não é. O maior problema é que estamos progressivamente nos afastando dos dados, dos fatos, embriagados pelo viés de confirmação. Isso não quer disse que a retórica inútil de “ambos os lados” vai nos salvar da realidade: os riscos do autoritarismo à direita são reais. Embalados por discursos que remetem a teorias da conspiração dos anos 1930, como “marxismo cultural” ou “genocídio branco“, os aspirantes a autoritários são vendidos como campeões de um certo Ocidente.

Por que ideias tão extremas se tornaram populares? Há várias explicações possíveis: manipulação de algoritmos de redes sociais, radicalização de partes da centro-direita depois de perdas eleitorais dez anos atrás, o sucesso inegável de think-tanks e propagandistas bem financiados, o fenômeno das notícias falsas, etc. De qualquer forma assistimos a uma estratégia de sucesso que consiste em associar valores muito comuns (zelo pelos familiares, religiosidade, desejo de trabalhar ou construir algo) a líderes e ideais extremistas. A difusão das pequenas verdades é essencial nessa empreitada, elas garantem a ampliação do medo e da incerteza, da consolidação da ideia de que a miséria ou o declínio que as pessoas experimentam seria causada pelas nefastas ideologias pregadas pelos “esquerdistas” e suas consequências.

Por Nova Direita aqui eu me refiro a um agregado ideológico mais ou menos coeso, combinando ideais do conservadorismo, libertarianismo e reacionarismo – e por vezes, de maneira consciente ou inconsciente, flertando com constructos da supremacia racial euro-americana e até do nazifascismo. Isso não quer dizer que as pessoas que apoiam ou se interessam pelos os ideais da Nova Direita seriam necessariamente simpáticas a ideias supremacistas, nazistas ou fascistas. O problema, mais complicado, é que essas ideias circulam com facilidade nesses meios, buscando aceitação através do “rebranding”.

Mas vamos ao que interessa: o edifício das pequenas verdades cresce cada vez mais rápido, já que os líderes, influenciadores e ideólogos da Nova direita o constroem diariamente. Por isso é importante analisar suas bases.

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Absurdismo Político?

1. Todo o mal reside na esquerda

Muito comum nos círculos de conservadores e reacionários ultramontanos, a ideia de que a esquerda personifica um mal transcendente é recorrente. Essa “pequena verdade” forma a base do pensamento da Nova Direita. Ela fundamenta todo tipo de revisionismo histórico, desde a negação de que haveria qualquer autoritarismo na direita (“não houve Ditadura Militar no Brasil”, “Hitler era socialista”, “o Nazifascismo era de esquerda” etc), passando pela ideia de que qualquer pensamento da esquerda seria patológico. Essa falácia em forma de “pequena verdade” é a grande fundamentação do pensamento da Nova Direita. Ela também tem uma propriedade recursiva: permite uma torção argumentativa que transforma todo novo mal explicitado em “esquerdismo”. Vide os absurdos argumentos que os neonazistas assassinos de Charlottesville seriam, na verdade, “esquerdistas” vinculados do partido Democrata.

Essa “pequena verdade” é construída com uma simples omissão dos fatos sobre a natureza da política norte-americana pós-Guerra da Secessão e sobre como os Partidos Democrata e Republicano inverteram suas políticas durante a luta pelos Direitos Civis. Nada disso interessa para a Nova Direita: eles venderão a “pequena verdade” conveniente de que aqueles que marcharam em Charlottesville não são de direita mesmo que a Alt-Right diga que marcha por valores conservadores, pelo livre mercado, pelo genocídio de minorias étnicas, por Donald Trump e contra valores progressistas.

A negação da possibilidade do mal ou do autoritarismo na direita é muito bem casada com uma torção da noção de liberdade: a sociedade civil que possui demandas progressistas será reduzida a um braço do Estado e representada como parte de um establishment tirano. A participação política passa ser vista como uma espécie de pecado original, a não ser que demande a suposta redução do Estado.

2. Capitalismo não é um sistema econômico como outro qualquer, com falhas e sucessos, mas um “reflexo da natureza”

Essa “pequena verdade” é muito comum nos circuitos de liberais, libertários e anarcocapitalistas. Ela se origina do pressuposto de que seria possível projetar o capitalismo retrospectivamente na história da humanidade, ou de que trocas espontâneas seriam “o capitalismo”. Também é corroborada por uma leitura simplista e caricata sobre a natureza dos genes e da teoria da seleção natural, projetando a competição econômica como um reflexo das trocas de energia na cadeia alimentar, por exemplo. O efeito disso é o que Mark Fisher chamava de “Realismo Capitalista“, um fenômeno no qual o capitalismo é conflagrado com a própria realidade, e o modelo do Mercado passa a ser idealizado como o padrão para todos os aspectos da vida. Qualquer tentativa de discutir ou reformar ao capitalismo torna-se utópica, anti-natural ou necessariamente perigosa.

Mais estranho, a única forma de combater consequências indesejáveis do capitalismo seria com um “mais liberdade econômica”, ou seja, retirando progressivamente taxação e regulações por parte do Estado. Os problemas seriam então “naturalmente” resolvidos através da livre iniciativa, auxiliada pela crescente e constante evolução das tecnologias. Discussões que apontem fatos que escapam a essa lógica (escassez de combustíveis fósseis, mudanças climáticas, extinção em massa) serão tratadas como “conspirações” instrumentalizadas para impedir o glorioso futuro prometido pela livre iniciativa em seu estado puro. E no mundo da não-intervenção, o princípio da livre iniciativa nunca é perturbado pela assimetria de poder entre indivíduos, comunidades, nações e corporações transnacionais (exceto se o indivíduo em questão for o George Soros).

Esse pensamento deriva de uma radicalização da ideia de que dinâmicas sociais, econômicas e ambientais tenderiam ao equilíbrio. A política passa a figurar como um um meio de garantir a “não intervenção”. Quando essa lógica falha em mostrar resultados esperados, círculos paleo-libertários e conservadores começam a enumerar inimigos: “terroristas comunistas”, “banqueiros socialistas”, “elites globalistas” ou “imigrantes parasitas”. Não tardará para que a Nova Direita passe a exigir que a mão pesada do Estado intervenha, sob a forma das Forças Armadas ou aparatos de segurança, contra esses inimigos sob a justificativa de assegurar supostas liberdades.

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“Debates”

3. “Você critica o capitalismo mas tem um iPhone”.

Essa “pequena verdade” parte de uma contradição aparente na esquerda intelectual ou de classe média: criticar o capitalismo, em qualquer aspecto, exigira que as pessoas não fizessem uso do que a Nova Direita considera como seus produtos. Misturada ao estereótipo do gauche caviar, do simpatizante do socialismo que vive do melhor que “o capitalismo proporciona”. Mas da crítica ao estilo de vida da esquerda intelectualizada essa “pequena verdade” logo evoluiu para bordões que congregam qualquer “comunista” a se mudar do seu país ou ir viver na floresta, já que a o convívio em sociedade e instituições seriam formas “naturais” do próprio capitalismo.

Tal “pequena verdade” aponta uma contradição inescapável para qualquer um que proponha mudanças: o fato de o sujeito está inserido naquilo que quer transformar. O pensamento peculiar por trás desse argumento é o de que não é o trabalho do sujeito mas “o capitalismo” o agente responsável pelo sucesso pessoal ou pela existência de quaisquer bens materiais. Comentários desse tipo serão seguidos por qualquer murmúrio sobre Cuba ou Venezuela, como se a republiqueta socialista e o petroestado populista fossem os únicos lugares do planeta onde o trabalho do indivíduo não é recompensado devidamente – ou que vivem crises de escassez.

Logo a questão torna-se de natureza moral: questionar qualquer aspecto do capitalismo é imoral para aquele que vive no capitalismo. Rio abaixo, a Nova Direita começa sua defesa do capitalismo através de fatos e questões lógicas mas logo passa para o campo da natureza humana e da moral. Discussões sobre essas contradições serão resumidas à acusações de “esquerdismo” ou “comunismo”. Paralelamente o realismo capitalista opera como uma saída simplória e reducionista às contradições dos diversos modos de produção, questões geopolíticas e históricas.

4. Indivíduos sempre são responsáveis por suas escolhas. O meio não influencia sua trajetória de vida ou suas escolhas morais a menos que tenham sido “doutrinados”.

Essa “pequena verdade”, em sua primeira parte, deriva da crença de que o indivíduo é o princípio fundamental da organização social. O individualismo faz parte de uma longa tradição da filosofia política, expresso em diferentes níveis, mas foi popularizado nas últimas décadas por meio do Tatcherismo e também pelo sucesso tardio do Objetivismo de Ayn Rand. O argumento de fundo individualista é muito comum na discussão sobre a criminalidade no Brasil, onde a esquerda mobiliza questões como a desigualdade social, a ineficiência da Guerra às Drogas e o modus operandi das forças policiais, e a direita enfatiza como ponto central a categoria de “bandido” como a fonte do problema. Removidos os bandidos, por encarceramento ou execução, o problema da criminalidade epidêmica estaria resolvido. O aumento galopante da letalidade policial e da morte violenta de policiais – muitas vezes atuando numa dupla jornada na segurança privada – seria apenas uma consequência direta e única da ação “dos bandidos”. Os bandidos seriam pessoas moralmente corrompidas, cuja escolha pela “vida fácil” no crime não teria qualquer relação com o meio em que vivem: vide o exemplo de tantas outras pessoas que não fizeram o mesmo. Já os excessos e crimes, se cometidos por policiais seriam o resultado de uma sociedade que não os valoriza, dos perigos do trabalho e tantas outras justificativas – muitas delas baseadas em fatos reais. Em suma, a corrupção policial seria “fruto da sociedade” e a “bandidagem” seria consequência de atos e escolhas individuais.

Curiosamente, em outro nível, a Nova Direita trata do constante perigo da “doutrinação” pairando sob a vida do cidadão. O fantasma da doutrinação se apresentaria principalmente na escola e outros espaços de educação, vistos como dominados pelos perigosos esquerdistas. Ali munidos de “livros do MEC” os professores estariam doutrinando seus alunos nos mais diferentes aspectos do que a Nova Direita chama de “marxismo cultural”, cujos conteúdos variam desde a rejeição à Ditadura Militar de 1964 passando por ensinamentos sobre os legados do colonialismo, diversidade social, educação sexual, ou respeito à homossexuais. A esquerda, para a Nova Direita, só existe por que “doutrina” as gerações mais novas através da educação. Na era da desatenção museus e escolas são representados como perigosos templos da doutrinação marxista supostamente responsáveis pelas restrições ao “livre pensamento”.

5. “No Islã é pior. Cale a boca e aceite.”

Essa “pequena verdade” deriva de um fenômeno recente, no qual céticos, ateus e secularistas euro-americanos deixaram de criticar a atuação do instituições do Cristianismo na esfera política e passaram a dizer que o Islã seria “a verdadeira ameaça ao Ocidente“. O abandono do foco no Cristianismo fez com que esses pensadores tivessem uma causa em comum com setores da extrema-direita, mantendo o trabalho fácil de tratar de uma religião em crise profunda, vinda de uma região arrasada por guerras e uma geopolítica que favorece um fundamentalismo extremamente destrutivo. Esse era um lugar novo confortável do ateísmo militante: quem em sã consciência tentaria defender uma religião cujos fundamentalistas mais violentos chacinam cidadãos desarmados em várias partes do globo?

O surgimento do Daesh (mais conhecido Estado Islâmico) foi um marco mais impactante que destruição das Torres Gêmeas pela Al Qaeda. A Nova Direita entendeu isso como uma oportunidade e logo se tornou passou a difundir a mensagem do Daesh, fingindo que ela corresponde à totalidade do Islã. O aparato de propaganda violenta do Daesh (venda de escravos, execuções, cenas de guerra) ajudou a Nova Direita a produzir um rebaixamento moral sem precedentes: tudo passa a ser justificável porque o Daesh já fez pior.

Homossexuais não podem reclamar quando políticos os chamam de imorais ou desumanos, quando sofrem violência na rua, porque estivessem em território do Daesh seriam sumariamente executados. Mulheres não podem elaborar sobre certa permissividade social em relação estupro porque o Daesh estuprou dezenas de milhares de prisioneiras de guerra. A denúncia de padres e pastores acusados de abuso sexual de menores não deve ser feita uma vez que certos países muçulmanos aceitariam o casamento de adultos com crianças. Se um supremacista racista invade uma mesquita ou templo Sikh e chacina seus frequentadores, devemos nos calar por causa dos atentados recorrentes na Europa. O Estado Islâmico rapidamente tornou-se uma referencia moral inconsciente, cujas atrocidades incontáveis e absurdas passaram a ser o norte para o que deve ou não deve ser permitido.

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6. “Não tenho corrupto de estimação”.

Essa “pequena verdade” deriva de uma estratégia muito bem sucedida da Nova Direita no Brasil: assumir que a política é “suja” e usar o discurso moralizador da política como forma de se eximir de responsabilidades sobre o próprio voto e preferências eleitorais. Esse discurso engendra uma lógica na qual os políticos apoiados pela Nova Direita acabam “consumidos” como se fossem celebridades. A lógica é a mesma do ciclo de vida das celebridades no aparato midiático: fama, adoração, desgraça, anonimato (repita). Vários campeões da moralidade política estiveram nas Páginas Amarelas ou na capa da Veja: Fernando Collor, o “caçador de Marajás”; Demóstenes Torres, o “mosqueteiro da ética”; a “súbita força” de Eduardo Cunha; Aécio Neves dizendo que é “vital recuperar a dignidade da política”. Agora Jair Bolsonaro é exaltado como “o único honesto” uma vez que não foi tocado pela Lava Jato – mesmo que tantos outros políticos também não sejam investigados.

Uma questão é a obsessão com os moralizadores, outra é a releitura rápida da história de modo a se isentar de tê-los apoiado quando são revelados como corruptos. Assim que um moralizador cai em desgraça, outro está já está em processo para assumir seu lugar. Então basta dizer que “não apoia corruptos”, afirmar que apoiou o antigo moralizador por “falta de opção” e se aglutinar em torno do novo moralizador. Essa isenção de responsabilidade através da lógica do consumo é bastante apropriada, uma adequação à narrativa de que as principais responsabilidades do cidadão se resumiriam a “produzir e consumir”. Num ambiente dominado pelas notícias do momento essa “pequena verdade” se sustenta com facilidade.

7. “Essa geração…”.

O que deveria ser um mote dos mais velhos contra os mais novos em tempos de transformação social acelerada acabou se tornando uma das pequenas verdades da Nova Direita. Essa pequena verdade afirma que a geração atual seria “fraca” ou “mimada” e que suas demandas pelo reconhecimento de minorias ou redistribuição de riquezas surgiria como um reflexo dessa fraqueza. Esse argumento é mobilizado principalmente pela juventude engajada na Nova Direita, que mira a si mesma numa versão romantizada do “conservadorismo” do passado. Angela Nagle entende que essa forma de fazer política da Nova Direita teria se fortalecido como resposta à política de identidades que se popularizou através da internet. O que ela chama de “esquerda tumblr” distribuiu a ideia de que as minorias são virtuosas por sua condição subalterna. A virtude estaria no fato de que viver como minoria exige força e conflito constante contra o status quo opressivo. Infelizmente, parte da subcultura de internet que teria surgido desse princípio acabou tornando-se demasiadamente autorreferente, obcecada com temas arcanos e subjetividade – algo para um texto futuro.

A Nova Direita juvenil procura inverter esse argumento, misturando o realismo capitalista, uma adesão à categoria de “opressor” e um suposto apologismo ao Ocidente (pois é). Isso permite uma identificação coletiva, como um passe de mágica, com “grandes nomes” da História: de filósofos da Grécia Antiga a generais da Europa. Também permite uma expansão do pensamento mágico que coloca atrás de si mesmo o monopólio sobre todas as conquistas humanas. Esse modo autocongratulatório de existência se tornou comum justamente em grupos de underdogs na internet que por qualquer motivo acham que postar memes congratulando o massacre de civis muçulmanos na Bósnia, as torturas do DOPS ou as execuções do governo Pinochet consistem em formas de “salvar a civilização Ocidental” de bolcheviques e justiceiros sociais.

8. “Tem que acabar os Direitos Humanos”.

Essa “pequena verdade” se apoia na ideia de que o conteúdo da Declaração Universal dos Direitos Humanos seria uma forma de “proteger bandidos”. Ignora-se que a Declaração foi assinada como um importante legado após o fim da 2a Guerra Mundial, depois de um conflito que arruinou a Europa e foi acompanhado de um genocídio sistemático. Algumas figuras da Nova Direita de inspiração libertária dirão que o problema está em ter o Estado reforçando tais direitos. Os reacionários dirão que nos “velhos bons tempos” haveria menos violência porque não existiam os tais “Direitos Humanos”.  Essa pequena verdade é de longe uma das mais complicadas e com possíveis implicações destrutivas, em especial quando a apologia ao genocídio passou novamente à integrar o discurso público.


Para saber mais

Anticast 313 – Da onde vêm os ideias da Nova Direita?

Anticast 313 – Material de Referência

Viracasacas 40 – Liberalismo Conservador?

Viracasacas 40 – Comentários

Andrew Sullivan – The Reactionary Temptation 

Joseph Bernstein – Alt White – How the Breitbart Machine Laudered Racist Hate

M. Ambedkar – The Aesthetics of the Alt-Right

Park MacDougald – The Darkness Before the Right

Rick Perlstein – I Thought I Understood the American Right. Trump Proved Me Wrong

(Preso) Amanhã

Luiz Inacio Lula da Silva

Acompanhei o julgamento do recurso do ex-presidente Lula pelo TRF-4 ontem. O resultado foi próximo ao que eu esperava – com adendos controversos. Condenado em 2a instância, Lula segue como possível candidato até o julgamento de todos seus recursos, podendo ser preso antes disso.

As reações ao julgamento foram interessantes. A máquina do antipetismo tornou Lula “o maior ladrão da história”, transformou o PT em “a quadrilha” (não se fala assim de outros partidos). Mais ainda, esse sentimento foi canalizado numa pluralidade de mídia que, quando não assume que o pensamento de esquerda é criminoso afirma que ele é patológico. Mas esse texto não se trata de uma defesa do Partido dos Trabalhadores, ou ainda, do Lulismo e do próprio Lula. Esse texto trata de duas encruzilhadas: a da esquerda brasileira e a do Brasil em si.

A direita brasileira tem por estratégia, consciente ou não, a eleição de moralizadores que são constantemente substituídos. Collor foi o Caçador de Marajás, Demóstenes Torres foi o paladino da ética, Eduardo Cunha foi o homem da súbita força, a lista é longa. A substituição rápida dá a vantagem à direita de possuir uma vantagem moral, mesmo que o novo paladino possa pertencer aos mesmos círculos dos ídolos caídos. “Não apoio bandidos, eu não sabia que ele era corrupto”.

A esquerda, por outro lado, se atém ao personalismo. Não se trata apenas do caso de Lula e da fusão da agenda do PT, sua pré-campanha e sua defesa. Lula é uma figura política que se tornou maior que seu partido. Todas as eleições, desde a redemocratização, giram em torno dele: ele (ou seu sucessor) é eleito ou disputa o 2o turno. Por quê?

A resposta valeria um livro e há muito escrito sobre isso. Essa talvez seja a primeira eleição onde isso não acontecerá. A escalada de Lula nas pesquisas eleitorais desde a deposição de Dilma Rousseff é importante, e se deu sobretudo à absoluta impopularidade de Temer e de sua agenda reformista. A incapacidade do sistema político de se renovar fica evidente: a maioria dos candidatos são veteranos. E não, Bolso não é renovação, tem 20 anos de casa e representa uma linha reacionária saudosa (ou idealista) em relação à Ditadura Militar.

O PT defenderá Lula a qualquer custo porque se tornou o partido do Lulismo. Ou melhor, o Lulismo se tornou maior que o PT. A maneira como Lava Jato foi constantemente retratada como uma operação contra o PT, e não apenas pela mídia lulista, mostra um mundo de expectativas que se concentra na figura do ex-presidente. A condenação e a prisão de Lula certamente significariam algo, mas o quê?

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“Será a derrota da corrupção.” “É o fim do populismo.” “É o enterro da esquerda.” “É um perigo para a democracia”, as respostas variam. Minha fé em relação às instituições brasileiras diminuiu muito, e repetir que elas estão funcionando não dá conta da estranha realidade com a qual nos deparamos. A deposição de Dilma quando contraposta ao que veio depois (decisões, gravações, denúncias) mostra como o governo morto-vivo se sustenta pelo cinismo – e por Gilmar Mendes ser o melhor amigo do mundo.

A história brasileira é cheia de episódios conturbados e esse momento recente não é uma exceção. Poucas transições de poder foram tranquilas e a ideia de Stefan Zweig de que somos um país que resolve suas diferenças pacificamente é um mito. Momentos marcantes da nossa história política parecem acontecer sem maiores incidentes, mas suas consequências emergem em algum ponto.

A Nova República se encerrou com a deposição de Dilma Rousseff. O que assistimos desde então é a consolidação de 3 grandes campos que apontam para nosso futuro político: uma esquerda saudosa do lulismo; uma direita saudosa do militarismo; um campo que deposita fé nas instituições. Nosso futuro, no entanto, não será garantido por qualquer fé. Em um momento onde a crise das democracias mundiais é um fato, qualquer segurança de que o nosso futuro é democrático parece inocente (e não, não vale usar aqui um reductio ad Venezuela: nesse momento assistimos a processos autoritários nos Estados Unidos e Europa).

Não sou juiz, nem especialista em direito penal, logo minha opinião sobre o julgamento de Lula não é importante. Não acho que Lula é inocente de todas as acusações, nem alimento uma ilusão de que sua eleição seria algum tipo de redenção, mas a politização inevitável do processo contra o ex-presidente parece ter ido a extremos. Em um processo dessa magnitude, onde o diabo mora nos detalhes, a argumentação técnica é necessária: minha preocupação, no entanto, mora nas suas consequências.

A seletividade da Lava Jato e do trato do STE e STF em relação a alguns políticos deixaram um gosto amargo na boca. A disfunção do Estado brasileiro parece ter se agravado desde a deposição de Dilma Rousseff. A inflação está baixa, a bolsa bate recordes. Mas as notícias são de dificuldades para os mais pobres. Há quem diga que nosso problema é muito Estado, copiando a fórmula bem sucedida das think-tanks norte-americanas. Esse discurso pode ter cativado certos segmentos da população gostam se pensar como “empreendedores” mas não vai vingar facilmente com grandes parcelas do eleitorado. Essa disfunção ampla favorece aventureiros como o General Mourão que, de maneira profética, leva o mesmo sobrenome de outro militar que golpeou o Brasil duas vezes (a primeira vez em 1938 como chefe do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira; a segunda vez em 1964 como o general que deu o pontapé inicial no golpe).

Os novos atores do debate público brasileiro inventaram que a esquerda (e só a esquerda) seria antidemocrática. A bem-sucedida tentativa da direita em equivaler o lulismo ao chavismo, paradoxalmente, criou um seguimento da população que acha que a democracia é dispensável. Na encruzilhada do Brasil, cheiro de República Velha de um lado e Ditadura Militar do outro. Na encruzilhada da esquerda, uma escolha improvável entre o personalismo carismático e a aridez do possível.

A catarse em torno de uma eventual prisão de Lula, como no caso da deposição de Dilma, vai passar rápido. Para aqueles que esperam esse momento mágico a esquerda, mesmo se desprovida de poder decisório, continuará sendo o bode expiatório que “atrasa o Brasil”. Uma das coisas mais interessantes que emergem durante a leitura da obra do Elio Gaspari é como dois anos depois da deposição de João Goulart, o oposicionista Carlos Lacerda se unia se a seus antigos inimigos políticos na chamada Frente Ampla contra a ditadura. Sua demanda era simplesmente a restauração do status quo de antes do Golpe de 64. O movimento foi jogado na ilegalidade em 1968, o mandato de Lacerda cassado e ele foi preso.

A erosão de uma democracia é um processo lento mas seu desmoronamento pode ser repentino.

Premissas e Problemas

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Detido em uma patrulha – Iraque, 2004.

A História pegou Fukuyama e o mundo de surpresa em 2016. Não há um lugar seguro para o progresso prometido pela democracia liberal, e o caminho que trilhamos até aqui parece esquecido em meio há tanto ruído. O panorama político de agora é, talvez, o mais perigoso que enfrentamos desde a década de 1960: uma intensa consolidação de governos autocráticos, alguns já rumo à ditaduras consolidadas com o uso da força.

Na década de 1960, o mundo ainda rescendia ao desastre da 2a Guerra Mundial e o grande embate se dava entre o socialismo Soviético e o capitalismo global liderado pelos Estados Unidos. As respostas para os problemas do mundo pareciam pender para um dos eixos: não havia qualquer outra alternativa.

A queda do Muro do Berlim e a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas foi um momento de mudanças drásticas e alguma esperança. Mergulhamos em um novo ciclo de globalização, em mundo que passava a se pensar cada vez mais como um só – a despeito das muitas contradições que persistam.

E então algo mudou.

Em 2001, os atentados que destruíram o World Trade Center delinearam uma nova geopolítica. Duas guerras depois, estamos longe de tornar o mundo um lugar mais seguro. O chamado “socialismo do século XXI” parece estar em seu último suspiro. A classe política decidiu não prometer esperança ou melhorias utópicas: passaram a abraçar novamente e sem restrições um discurso de terror.

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A queda de Bagdá – Iraque, 2003.

A polarização política é desproporcional e parece permear tudo. Esquerda e direita se diluem na malversação e qualquer ideia de consenso uma “terceira via” vai por água abaixo em meio à inúmeras crises: ecológica, de representação, dos refugiados, de guerras intermináveis.

A internet nos tornou mais próximos, mas isso não é necessariamente bom. Reunidos em multidões online somos muito mais suscetíveis à total histeria. Também estamos inseridos em uma série de esforços de propaganda, marketing e manipulação em massa – mas agora achamos estas são fruto de “autênticos usuários” da rede.

Pensar nesse mundo novo exige estar atento a uma série de premissas. Enumero algumas delas a seguir:

  1. Na era da informação nossa atenção é um recurso escasso.
  2. A política não é um sistema em perpétuo equilíbrio.
  3. Nenhum dos nossos direitos está garantido por pedaços de papéis e instituições.
  4. O terrorismo dos radicais islâmicos triunfou: uma vitória de propaganda.
  5. A viabilidade da “nova direita” exige atentados terroristas e jihadismo.
  6. A falta de esperança estimula o cinismo autodestrutivo.
  7. A polarização e a desigualdade são ameaças às democracias Ocidentais.
  8. O ódio é uma linguagem viral, de fácil manipulação e difusão.
  9. Em meio às novas suásticas está abolida a Lei de Godwin.
  10. “Histórias alternativas” podem ser “alternativas à História”.
  11. O que está acontecendo não deve ser normalizado.
  12. Não há respostas simples para questões complexas.
  13. O apoio aos autoritários não garante anistia a quem os apóia.
  14. O mal não é exclusivo ao “outro lado”.
  15. O que está em crise é a possibilidade de qualquer compromisso.

 

a História que não teve fim

O ano de 2016 ficará na História. A escalada na Guerra da Síria, o Brexit, uma série de atentados na Europa, a eleição de Donald Trump, a tentativa de golpe na Turquia, a deposição de Dilma Roussef, etc. Mas do lado de cá 2016 também fica marcado como um ano em que a política mundial parece tomar rumos imprevisíveis.

Em 1992 Francis Fukuyama, um entusiasta de mercados livres e democracias liberais, publicou “O Fim da História e o Último Homem”. Ali, ele argumentava que o liberalismo, o individualismo e a democracia haviam triunfado sobre os ideais coletivistas do socialismo soviético. A intenção de Fukuyama era justamente contrapor a máxima marxista de que “o comunismo era inevitável”, mas apresentava um otimismo profético similar. Fukuyama via a História em movimento como uma força rumo ao progresso. Mas em 1992, com o fim da Guerra Fria e o advento da globalização e da internet, qualquer entusiasta da democracia liberal estaria tomado por um senso de otimismo incontornável.

E 2016 também foi o ano em que Fukuyama desistiu. Fora um dos mentores intelectuais da Doutrina Reagan e do neoconservadorismo que guiou os Republicanos de George W. Bush. Colecionou o ódio de grande parte de esquerda socialista por decretar o fim de seus sonhos. Sua teoria triunfalista proveu a base para o otimismo desfocado da psicologia evolutiva de Steven Pinker em “Os Bons Anjos da Nossa Natureza”, onde o cientista argumentava que estaríamos nos tornando “menos violentos” como espécie – enquanto ignorava os drones armados voando por aí.

Mas em 2016, enquanto Fukuyama entregava os pontos, percebi que mesmo tentado negado seu otimismo profético eu acreditava nele. Ou melhor, eu preferia acreditar! Era confortável demais tocar o trabalho e a vida acreditando que um futuro, mais ou menos estável, era o que nos aguardava atrás da curva. Que a política seria um sistema em equilíbrio, sempre conseguindo encontrar os meios para algum tipo de consenso.

Doce ilusão.

Fukuyama ajudou a fundamentar o neoconservadorismo, mas se afastou dele em 2006 por considerá-lo destrutivo. A Guerra do Iraque mostrara que havia um otimismo quase simplório (ou cínico) de que bastaria depor o tirano para que a democracia fluísse. Ele entendeu que a Guerra ao Terror era uma guerra pelos “corações e mentes” do Oriente Médio, e não poderia ser vencida com campanhas militares.

Dessa vez ninguém escutou Fukuyama e aqui estamos. Não há qualquer razão para otimismo, e as ideologias que tentar substituir o neoconservadorismo na Casa Branca mostram isso muito bem. No encontramos numa encruzilhada entre o nacionalismo étnico e “novas” ideologias conservadores que flertam com tendências anti-Iluministas e anti-democráticas – que na prática resultariam na destruição da Declaração Universal dos Direitos Humanos… tudo isso num cenário em que qualquer tema parece ser a catapulta para graus de polarização política que flutuam rumo à irracionalidade.

Mas se a História continua, e guerras possíveis e impossíveis despontam no horizonte, a disputa por corações e mentes continua. O que assistimos agora não é um triunfo da racionalidade dos Mercados combinada com o melhor do savoir-faire do liberalismo: ideias ruins, mal fundamentadas e potencialmente destrutivas estão triunfando, e algumas tão profundamente enterradas no pensamento político contemporâneo que é como se nunca tivessem saído de lá. E talvez nunca tenham saído mesmo.

 Nesse atoleiro, nessa várzea, vamos remando em busca de alguém chão firme.

Meu objetivo nesse blog é “pensar alto”. Há anos tenho o privilégio de estudar disciplinas muito diferentes, usar isso a trabalho, continuar aprendendo. Em casa, diante de tantos cadernos cheios de verborragia, decidi colocar algumas ideias na mesa.

Vejamos.

C.