a História que não teve fim

O ano de 2016 ficará na História. A escalada na Guerra da Síria, o Brexit, uma série de atentados na Europa, a eleição de Donald Trump, a tentativa de golpe na Turquia, a deposição de Dilma Roussef, etc. Mas do lado de cá 2016 também fica marcado como um ano em que a política mundial parece tomar rumos imprevisíveis.

Em 1992 Francis Fukuyama, um entusiasta de mercados livres e democracias liberais, publicou “O Fim da História e o Último Homem”. Ali, ele argumentava que o liberalismo, o individualismo e a democracia haviam triunfado sobre os ideais coletivistas do socialismo soviético. A intenção de Fukuyama era justamente contrapor a máxima marxista de que “o comunismo era inevitável”, mas apresentava um otimismo profético similar. Fukuyama via a História em movimento como uma força rumo ao progresso. Mas em 1992, com o fim da Guerra Fria e o advento da globalização e da internet, qualquer entusiasta da democracia liberal estaria tomado por um senso de otimismo incontornável.

E 2016 também foi o ano em que Fukuyama desistiu. Fora um dos mentores intelectuais da Doutrina Reagan e do neoconservadorismo que guiou os Republicanos de George W. Bush. Colecionou o ódio de grande parte de esquerda socialista por decretar o fim de seus sonhos. Sua teoria triunfalista proveu a base para o otimismo desfocado da psicologia evolutiva de Steven Pinker em “Os Bons Anjos da Nossa Natureza”, onde o cientista argumentava que estaríamos nos tornando “menos violentos” como espécie – enquanto ignorava os drones armados voando por aí.

Mas em 2016, enquanto Fukuyama entregava os pontos, percebi que mesmo tentado negado seu otimismo profético eu acreditava nele. Ou melhor, eu preferia acreditar! Era confortável demais tocar o trabalho e a vida acreditando que um futuro, mais ou menos estável, era o que nos aguardava atrás da curva. Que a política seria um sistema em equilíbrio, sempre conseguindo encontrar os meios para algum tipo de consenso.

Doce ilusão.

Fukuyama ajudou a fundamentar o neoconservadorismo, mas se afastou dele em 2006 por considerá-lo destrutivo. A Guerra do Iraque mostrara que havia um otimismo quase simplório (ou cínico) de que bastaria depor o tirano para que a democracia fluísse. Ele entendeu que a Guerra ao Terror era uma guerra pelos “corações e mentes” do Oriente Médio, e não poderia ser vencida com campanhas militares.

Dessa vez ninguém escutou Fukuyama e aqui estamos. Não há qualquer razão para otimismo, e as ideologias que tentar substituir o neoconservadorismo na Casa Branca mostram isso muito bem. No encontramos numa encruzilhada entre o nacionalismo étnico e “novas” ideologias conservadores que flertam com tendências anti-Iluministas e anti-democráticas – que na prática resultariam na destruição da Declaração Universal dos Direitos Humanos… tudo isso num cenário em que qualquer tema parece ser a catapulta para graus de polarização política que flutuam rumo à irracionalidade.

Mas se a História continua, e guerras possíveis e impossíveis despontam no horizonte, a disputa por corações e mentes continua. O que assistimos agora não é um triunfo da racionalidade dos Mercados combinada com o melhor do savoir-faire do liberalismo: ideias ruins, mal fundamentadas e potencialmente destrutivas estão triunfando, e algumas tão profundamente enterradas no pensamento político contemporâneo que é como se nunca tivessem saído de lá. E talvez nunca tenham saído mesmo.

 Nesse atoleiro, nessa várzea, vamos remando em busca de alguém chão firme.

Meu objetivo nesse blog é “pensar alto”. Há anos tenho o privilégio de estudar disciplinas muito diferentes, usar isso a trabalho, continuar aprendendo. Em casa, diante de tantos cadernos cheios de verborragia, decidi colocar algumas ideias na mesa.

Vejamos.

C.

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2 comentários sobre “a História que não teve fim

  1. Pingback: Premissas: novos problemas | eh várzea

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