Liberalismo para a Servidão

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“Pode conduzir ao abismo mas é para o seu bem”

A consolidação da candidatura de Jair Bolsonaro como representante da direita brasileira nos trouxe a um lugar assombroso e peculiar. À medida que sua chapa fala mais e mais abertamente sobre a possibilidade de algum tipo de intervenção na democracia (seja o aumento artificial e unilateral dos ministros do STF, uma nova Constituição sem Constituinte, ou mesmo a defesa explícita de um golpe de Estado ou de autogolpe) mais os nossos colegas amantes da liberdade apostam suas fichas num eventual governo Bolsonaro. “É que o Paulo Guedes vai fazer as reformas, privatizar, abrir nossa economia“.

É isso mesmo. Muitas das mesmas figuras que passaram anos esperneando contra um suposto caráter autoritário dos governos do Partido dos Trabalhadores agora tentam criar justificativas sobre como um eventual governo de entusiastas da Ditadura Militar nos conduziria à liberdade. Vejam só! Talvez se esqueçam de que uma suposta liberdade econômica agora teria um novo preço: a liberdade política.

O que nós assistimos é mais um capítulo na novela latino-americana onde supostos defensores da liberdade ajudam a rifar a democracia em troca de algumas reformas “desejadas pelo Mercado”. Muitos lembram da escusa relação da Escola de Chicago com Chile de Pinochet, cujo legado patético é uma mentira, e continua motivando estranhos desejos por “outros Pinochets” como reformistas ideais, já que podem conduzir sua política sob o auspício dos canhões e dos porões.

Eu gosto também de outro exemplo, mais recente e mais instrutivo e que envolve um pensador liberal com muito mais lastro do que um aventureiro como Guedes.  Hernando de Soto Polar é um economista peruano premiado e respeitado, conhecido por seu trabalho sobre pobreza, economia informal e direitos de propriedade – especialmente a propriedade da terra. De Soto é também conhecido por sua participação no governo de Alberto Fujimori, presidente eleito em 1990 que mais tarde governaria o Peru como um ditador.

Fujimori fez suas reformas liberais a fórceps, fechou o Congresso, criou uma polícia pessoal que agia como grupo de extermínio (Grupo Colina) e escalou a guerra do Estado peruano contra o Sendero Luminoso de maneira brutal, legalizando milícias e usando as Forças Armadas para praticar atrocidades contra comunidades de camponeses consideradas “suspeitas”. Comandou a esterilização involuntária de 200 mil mulheres mulheres pobres. Foi um presidente popular, apesar de tudo, mas terminou seu mandato em total desgraça: denunciado por crimes contra a humanidade, corrupção, envolvimento com o narcotráfico. Fugiu do Peru mas anos mais tarde foi preso no Chile e extraditado de volta.

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Funeral paras as vítimas do Massacre de Barrios Altos

Mas mesmo com Fujimori preso o Fujimorismo não acabou. Foi herdado por seus filhos, Keiko e Kenji Fujimori. Em 2010 Keiko Fujimori fundou o Fuerza Popular, partido que reunia os fujimoristas peruanos. Ela concorreu às eleições presidenciais em 2011 mas perdeu para o militar reformado Ollanta Humala e seu partido conseguiu 37 assentos no Congresso Nacional.

E Soto Polar? Ajudou Fujimori a implementar suas reformas mas se afastou dele depois do autogolpe. Sua relação com o fujimorismo, no entanto, permaneceu. Nas eleições de 2016, quando Keiko Fujimori era a candidata preferida para a presidência e os fujimoristas do Fuerza Popular se mostravam como favoritos para conseguir maioria no Congresso Nacional lá estava Hernando de Soto Polar novamente, apoiando Keiko Fujimori – apesar, das inúmeras denúncias do envolvimento de seu partido e sua candidatura com o narcotráfico.

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Fool me once…

Keiko Fujimori não venceu as eleições presidenciais de 2016, a vitória de Pedro Pablo Kuczynski (nosso querido PPK) se deu por uma margem ínfima. Mesmo com maioria  no Congresso o Fujimorismo não se acertou, e de lá para cá vem sofrendo derrotas atrás de derrotas e perdendo um de seus maiores triunfos: o apoio do judiciário corrupto herdado da ditadura Fujimori.

Esse pequeno conto traz alguma lições para nossa realidade. A primeira delas é a de que os liberais latino americanos muitas vezes são coniventes com regimes ditatoriais desde que possam fazer suas tão sonhadas reformas. “Democracia” e “liberdade” são valores de conveniência, palavras que devem ser acionadas quando se fala de governos autoritários com um viés de esquerda – ou aqueles com os quais governos de esquerda mantém relações.

No clima de absoluta desinformação e abandono institucional das eleições de 2018 muitos liberais se mostraram prontos a abraçar uma candidatura que se desenha autoritária e violenta desde seu primeiro momento. “Não é o PT”, dizem, e quanto mais evidências se amontoam de que o mandato do bolsonarismo promete violência e coerção mais se empenham na produção de uma falsa simetria em relação ao Partido dos Trabalhadores. O PT, no imaginário desses liberais, deixou de ser um partido de centro-esquerda com problemas de corrupção para se tornar um projeto ditatorial. Cada fala de José Dirceu deve ser tomada como uma ameaça imperativa e literal. Cada atentado contra a democracia gestado na cúpula do bolsonarismo deve ser trivializado.

A chapa pode ameaçar golpe de Estado sucessivas vezes, desde que condene os regimes de Maduro e Ortega. A violência pode ser estimulada e praticada nas ruas desde que seja contra a petistas. Agora dentro do paradigma do liberal-bolsonarismo muito cabeça de planilha se sente contemplado e inserido dentro de um movimento “verdadeiramente popular”: uma coalizão improvável de militares, pastores e youtubers, da qual participam por meio das promessas reformistas do fiador, Paulo Guedes.

Mas o bolsonarismo não é o fujimorismo e seu caráter liberal-reformista pode ser apenas um delírio. O preço dessa soberba, como de costume, também será terceirizado.

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