A “direita de verdade”: lições aplicadas em deformação da história

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Caminhos e Quartéis

 

A paralisação dos caminhoneiros em 2018 forneceu  tem um cenário perfeito para acertar alguns ponteiros. Houve muitas discussões sobre a natureza dessa paralisação (se foi um greve ou um locaute) e a clara tentativa de captura dessa movimentação por grupos de extrema-direita que clamam por um golpe militar – eufemisticamente chamado de intervenção.

Mas eu não vou falar sobre a paralisação em si, nem sobre a emergência, cada vez mais descarada, de gente tentando dar um golpe à direita. Recomendo aos ouvintes que escutem o Anticast #339, que tem um ótima discussão sobre combustíveis e a Petrobrás no contexto nacional e internacional, obrigado ao Thales Nogueira e ao Leandro Tavares e à Jaqueline Ganzert; o Política em Transe #14, onde o Rafael Saddi fala coisas muito interessantes sobre trabalho precarizado e sobre a experiência dele junto a um dos pontos de mobilização da greve; e finalmente, o Revolushow #18 onde o Zamiliano e a Marília Moscovitch discutem questões sobre greve e locaute e discutem também o legado de repressão aos movimentos grevistas durante a ditadura.

A paralisação deixa um monte de lições sobre o Brasil e nossa atuação situação política. Sobre o declínio de valores democráticos no cenário global e sobre a miopia de certas posturas diante de uma situação que exige mais política de Estado que qualquer outra coisa.

Mas ela também abriu cisões e discussões dentro da própria direita brasileira. Discussões sobre que variavam da defesa do funcionamento da Petrobras num molde estritamente compatível com o de uma companhia privada (mais comum entre os liberais), e outros defendendo que combustíveis em alto valor oneram o empresariado e seriam ruins. No meio disso tudo a direita nacionalista a lá Enéas Carneiro quase gritando “o petróleo é nosso” tentando capturar um discurso clássico nas esquerdas.

Bolsonaro deu apoio aos grevistas e chegou a prometer indulto a eles caso fosse eleito. Mais tarde voltou atrás, mas só depois de toda alta cúpula militar enviar mensagens nas quais demonstraram não ter desejo de corresponder aos anseios dos intervencionistas. Outros candidatos à direita variaram sua opinião Alvaro Dias, Geraldo Alckmin,

E aí logo se instaurou todo tipo de discussão. Apoiar grevista é coisa que um conservador deve fazer? Intervenção militar é coisa de coletivista? Um verdadeiro direitista não deveria dar mais crédito a Pedro Parente, suas políticas de preços aos preceitos do mercado?

E aqui, eu peço que o leitor me deixe fazer uma abstração, uma especulação. Eu não gosto de especular para produzir um argumento porque é uma tática fácil e preguiçosa. No entanto, par o ponto desse específico desse texto  eu peço licença para fazê-lo, especialmente diante do que nós vamos discutir a partir de agora.

Imaginem que num futuro próximo essa massa de bolsonaristas e viúvas da ditadura consegue instaurar um regime ditatorial no Brasil. Primeiro tentam guiar tudo com um ar de normalidade e depois, em nome da superioridade moral que defendem, esses grupos cometem crimes horrendos tanto com o aval do Estado quanto à revelia dele. Anos e pilhas de cadáveres depois, a ditadura acaba, e o Brasil – ou o que restou dele – entram novamente em vias de ensaiar uma democracia.

E aí novamente temos os conservadores buscando seu lugar no discurso público, alguns deles egressos do regime ou mesmo perseguidos por ele. Nos primeiros anos os últimos produzem obras onde tentam descrever como tudo saiu do controle naquela situação…. e anos mais tarde os primeiros começam a fomentar uma ideia muito absurda (mas muito familiar para os tempos de agora): essa ditadura foi violenta porque não era guiada por princípios conservadores, ela era de esquerda.

Vejam como é simples. Para conseguir justificar seu ponto eles vão usar dados reais (por exemplo, esse apoio de políticos de direita a grevistas), o discurso nacionalista de parte da direita, o mesmo descontentamento da esquerda e da direita no Brasil com meios de comunicação. Também vão usar muito habilmente o fato de que o guru do conservadorismo que fundamentou o golpe de estado tinha, ele próprio, sido um comunista na juventude! E que sua retórica era totalmente impregnada de discursos revolucionários sobre “organizar as massas” e várias linhas escritas contra as “elites globalistas”.

E depois disso escreverão livros dizendo que os princípios conservadores são outros: o de uma cautela com a mudança brusca, do respeito às liberdades individuais, entusiasmo pelo livre mercado, entre tantos outros.

Vocês já leram algo parecido? Pois.

Esse é o mesmo tipo de recurso retórico usado para dizer, por exemplo, que o nazisfascismo seria um movimento de esquerda, e que hoje representa a base para toda uma filosofia política do mundinho paralelo construído por uma nova direita  nos Estados Unidos e no Brasil.

Isso é algo muito fácil de fazer, especialmente quando se parte de uma posição fixa sobre o que é esquerda ou direita no mundo e na história. Eu poderia dizer que esquerda é aquela que respeita direitos civis e liberdades e falar que o camarada Stálin foi um conservador e traidor dos preceitos do verdadeiro socialismo. Ou que sua supressão dos dissidentes impediu que os trabalhadores voltassem a poder se organizar e que ele traiu os preceitos do marxismo leninismo. Ou poderia escrever um livro dizendo que ele era um centrista nacionalista, por suas alianças táticas com o conservador Churchill e o liberal Roosevelt. Há tantos fatos, que se eu for selecionar todos eles com cuidado (enfatizando e omitindo conforme a conveniência) eu posso transformar Joseph Stálin num tipo alienígena, fora do ideal de esquerda que eu ou outro descrevemos como ideal. Especialmente, como disse antes, se partir de um pressuposto qualquer sobre o que seria esquerda e direita.

E isso seria um erro, claro, porque eu acredito que o stalinismo representa um tipo de despotismo que poderia acontecer numa situação de revoluções, guerras e centralização de poder.

A direita que ascende ao poder no mundo guarda tantas similaridades com o espectro do nazifascismo que parte mandatória de seu funcionamento está na criação de uma novilíngua que permita dizer que essas ideologias derrotadas na 2a Guerra seriam uma criação da esquerda. Não interessa a essa suposta “inteligência conservadora” que os neo nazistas de Charlottesville marchem com suásticas, apoiem Donald Trump e digam defender valores conservadores.

Quando Charlottesville e outras marchas neonazistas aconteceram nos EUA, a inteligência conservadora da nova direita correu para dizer que o “nazifascimo é de esquerda”. Incapazes de explicar por que os nazifascistas defendem e apoiam o mesmo presidente que eles elogiam, outros ainda produziram uma versão ainda mais cretina: o bilionário filantropo George Soros é quem financiado a quela manifestação.

Há elementos e correntes na nova direita que querem adotar partes do projeto nazifascista (anticomunismo violento, nacionalismo étnico, ultraconservadorismo), usar as teorias da conspiração do nazifascismo (como a do marxismo cultural), quer o apoio eleitoral de mobilização dos nazifascistas (vejam como Trump sempre é incapaz de condená-los) e por isso PRECISAM desesperadamente criar uma narrativa que os separe dos regimes autoritários que iniciaram a maior guerra da história e quase destruíram, de fato, a Civilização Ocidental que tal direita diz proteger.

Reescrever a história, vejam só, é muito fácil.

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